LuzazuL

assim, em Leningrado

[jan’1988]

 

 

 

 

   em Leningrado*,

 

 ao longo da sua arquitetura

                        congelada

 

entre os seus canais, casais, cais

 

 seus largos pensamentos, hemisféricos,

      seus muros prenhes de histórias,

 

 até ao fundo dos seus museus,

à raiz mesma

 da sua memória de sacrifícios..

 

         não,

em Leningrado não há só hoteis,

           o circo,

         teatros,

           a música,

 

         há a tristeza

            dos esquecidos,

 

   há turvos amanheceres, também,

   profundos, nublados de prenúncios

                   e sinais,

 

               mas não,

         em Leningrado

         no   inverno

  nunca amanhece

           por completo,

 

       a madrugada se prolonga

    indefinida, difusamente:

 

   Tolstoiévskis perambulam acorrentados

   arrastando sua insônia sem consolo,

       recitando sua nênia incalculável,

     gemendo de prazer e insegurança;

 

   lá fora, lá longe de todos nós

 

uma guerra estrangeira constroi    

   escombros,

 

 enquanto isso alguém, sozinho, dmitri,

  aqui dentro sofre sintomas sinfônicos,

 

        [sozinho, latejantes!]

 

    pois,

   em Leningrado é sempre cinza,

 

         e duas vezes cinza

         nestas épocas tamanhas

       em que me sinto muito aqui

        e tão completamente só.

 

 

 

 

 

 

 

* atual São Petersburgo, Rússia


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