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03.01.2011

Palavras azuis


Celestino Sachet

CLÁUDIO DUTRA há quase 25 anos percorre caminhos da Literatura Catarinense e já produziu seis livros. O Poeta e o ficcionista permanecem fieis no rumo traçado em Porto União, em 1985, com o livro batizado Líquida pétala.
O título, em si, já é um corajoso micropoema. Uma “pétala líquida” não existe dentro da Natureza porque a pétala participa do estado sólido dos elementos, enquanto o adjetivo “líquida” que a identifica integra o estado líquido.
Dentro da Natureza é assim : pão-pão, pinga-pinga. A pétala apresenta forma e contornos definidos. Ao determinar o Poeta que essa pétala é líquida, ela toma a forma do recipiente que a contém.
Repetindo, dentro da Natureza é assim. Mas dentro da Arte, este “assim” se transforma em “aaassssssiiimmm” – cada letra repetida três vezes em homenagem aos três estados : sólido, líquido, gasoso.
A pétala do Poeta não cabe na sua única e exclusiva forma do estado sólido. Ela pode configurar-se numa infinidade de formas, não apenas nos três estados, mas em milhões de estados.
Na expressão “líquida pétala” essa nova flor já não é mais sólida e ainda não chegou ao estado gasoso. Mas um dia ela vai chegar lá e ultrapassá-lo.
Esse título do primeiro livro de Cláudio Dutra desvela o espírito da arte literária do novo poeta que estava surgindo : a Realidade, para ele, não é um ponto final ou um objeto caminhando para a decomposição : tudo o que é sólido desmancha-se no ar, alguém andou dizendo.
No poema “mistérios gasosos”, do livro Asasazuis, publicado em 1992, o Poeta convive com uma “lâmpada líquida”, (p. 36); em “aliás”, logo à frente, com “horas molhadas”, (p. 37). E no poema “o mágico massacre de uma tarde naufragada”, com “lodoso vazio” e “pétalas da luz” (p. 53).
A arte poética de Cláudio Dutra supreende e fotografa a Realidade em processo da transformação: não rumo ao Nada, como nas coisas da Natureza, mas direcionada ao Tudo. É o que está, por exemplo, no poema “zapt”, sete versos distribuídos em uma página : mas // a qualquer instante // num já // tudo pode passar a acontecer // di fe ren te men te // de como tudo // antes (p. 14)
Isto não são teorias de analista aloprado. O poema “a palavra movimento”, do Luzazul garante : prático / como o pouso / da onda / sobre a areia // é o voo / da palavra movimento, // navegando entre / as sombras / silenciosas / desta noite / imóvel, muda // dura // e fria (p. 47). E o título do livro pode ser lido de trás para frente, com o mesmo resultado se fosse feita uma leitura da esquerda para a direita, como fazemos na cultura ocidental.
Para comunicar essa mobilidade permanente, o Poeta entra no miolo da palavra e provoca-lhe uma reconstrução para proclamar essa realidade – em – trânsito. No poema “quais ?”, de 1992, a palavra tem a força do “faça-se” de Deus-Pai ao criar o Cosmos, na abertura do primeiro capítulo do Gênesis : “Deus disse : – “ Faça-se a luz! “E a luz se fez”. Diz Cláudio Dutra : algumas palavras / parem pétalas // explodem pólen / fecundam brilho // desabrocham músicas / dedilham liras // liberam ecos / lapidam gritos. (Asasazuis, p. 65)
Palavras-voz de um Poeta-criador iluminam o título dos cinco livros seguintes à Líquida pétala : Asasazuis, 1992; ContrAEncontro, 1999; Automáquina, 2000; Perpetuocontinuum, 2005 e o último – até agora – Luzazul, 2008.
A palavra em si, eixo da Arte Literária de Cláudio Dutra, vem plantada no título do livro, mas pode estar à espera para germinar dentro do verso ou do poema; no poema ou no conto; na estrutura da página ou do livro. Porque a palavra tem que trazer em si um perpetuocontinuum, um contraencontro ou uma automáquina, cada poema, cada texto poético apresenta uma individualidade gráfica irrepetível.
Em Luzazul cada verso entra no poema com o seu rosto característico e cada leitor percorre o poema com seu próprio rosto. E por isso, cada rosto do poema não pode ter a mesma cara do texto anterior ou daquele que o seguirá. Essa cara poemal (desculpado o neologismo) oferece ao leitor a segurança de que ele entrou na página em completa liberdade : sem rima, sem métrica, sem sílabas contadas, sem versos emparelhados, quase sem pontuação, mas com abundância de vírgulas. Quase todas as palavras iniciam com letra minúscula como a desafiarem o leitor para que leia versos que não estão escritos, mas que estão saindo do êxtase poético de quem está usufruindo o texto.
Não se pense que no texto de Cláudio Dutra reine o caos. Ao contrário : a eufonia – sons agradáveis e repetidos, mas não iguais – dão a sensação-certeza de que as palavras decidiram, por elas mesmas, a entrarem no verso porque explodiu dentro delas a responsabilidade de recriarem a Sinfonia do Universo e a Filosofia do Novo conhecimento.
O poema “quasecoisa”, abertura do último livro, explode com estes dez versos, distribuídos em espaços diferentes entre um e outro e em espaços também diferenciados ao preencherem o lado esquerdo ou o lado direito da página : no momento zero o início tem começo. // depois, tudo se segue, se anuncia, vem a ser. // mas não há trama, ainda / nem remendos ou arremates, / neste estágio dos acontecimentos : // é tudo / apenas / o nada / vindo a si, // [desdeixando-se, a vir].
O movimento para essa mudança cósmica se concretiza, também, pela presença dos mesmos sons, como é o caso do fonema “c” no verso : “depois, tudo se segue, se anuncia, vem a ser”
Dezesseis anos depois de, pelo Asasazuis, ter recebido o Prémio Luiz Delfino, de Poesia, atribuído pelo governo do Estado, o Luzazul, de 2008, continua a presença do mesmo “azul”, imagem e símbolo do Universo.
Estas reflexões recebem o título Palavrasazuis porquê o Universo deixou de estar lá longe e ele veio aninhar-se nos poemas. Melhor : veio aninhar-se em todos os poemas escritos até agora.
Cláudio Dutra é um poeta no rumo certo. Com certeza, uma legião de poemas, dentro de seu Gênio-Arte, brotarão em versos para se enfileirarem em centenas de páginas de novos livros.

 

 

 

[texto de orelha, em visAvis]



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