Contræncontro

Um estranho

Quem o viu, naquele dia, nada diz. Ninguém sabe, agora, nada mais a seu respeito. Morreu sozinho, dizem, entre a indiferença do céu escuro e o desprezo dos que passavam. Deitou-se, calmo, num banco da praça, e ali faleceu. Sem escândalo, muito discretamente. Seu grande focinho, comprido e afilado, voltado para o escuro do céu, a boca estreita enormemente aberta. O peito, imóvel. Os olhos permaneciam, todavia, mirando algo vazio, ao longe, acima.  Era noite.
O que se soube dele por último é que andara a especular sobre certos assuntos proibidos ou perigosos, entre nós, como por exemplo acerca das imperfeições físicas da nossa espécie e coisas assim. Algumas vezes, até, conforme comentam, propondo providências corretivas – por meios não necessariamente cirúrgicos, inclusive – aos contornos das nossas faces peludas. Seus argumentos e suas elaborações eram de tal modo inaceitáveis que o consideraram louco, é claro.
Dizem que, primeiro, ele entorpecia seus interlocutores com indagações perspicazes, inusitadas e bastante originais até. A seguir os induzia a conclusões fabulosas, fantásticas, e no entanto reais e pertinentes, quase sempre estofadas de uma simplicidade flagrante, letal. Outras vezes, ornadas com a indumentária da descoberta, suas teses surpreendiam já pelo gritante de uma lógica anormal. Isso produzia nos ouvintes uma espécie de admiração inicial. Mas, logo após, face ao inevitável choque que as suas ideias provocavam, o que surgia e ficava era uma amarga e raivosa indignação em todos, algo como uma resistência instintiva ao esquisito desconforto que a conversa e a companhia daquele indivíduo lhes causavam.
Ele, por sua vez, só assistia a tudo, sem entender muito bem o que andava por ir acontecendo. E ria, com dissimulada malícia, das repercussões daquilo que ele dizia. Daí se calava, de pronto, até desistirem de ir importuná-lo na intimidade lá de suas elaborações, até o abandonarem, por um pouco que fosse, à segurança da sua solidão.
Naquele último dia, dizem, viram-no atravessar os limites da cidade, e sair a vagar pelos campos, virando vales, varando rios. Sozinho, porém. Narram ainda tê-lo visto sentar-se próximo à árvore mais importante do bosque municipal e ali permanecer, quieto, consigo só, durante horas.
Levantou-se – contam – bem depois, e saiu correndo a toda, na direção do povoado. Chegando à praça central, parou. Respirou e descansou por uns bons instantes. Mas logo deu início a uma dança tumultuosa, sem ritmo, meio valsa meio fuga, meio qualquer coisa meio coisa nenhuma, em órbita de um eixo que ele aparentava imaginar ali próximo. Em silêncio, porém, em severo e cuidadoso silêncio. Não tinha, já, nada mais a dizer. Só dançava.
Aqueles que o perseguiam o alcançaram, fácil fácil. Bateram nele com varinhas molhadas em azeite e o reprimiram com alegria. Deram nele com a ressentida violência dos impotentes. Espetaram alfinetes quentes no seu focinho amplo, peludo e enrugado. E cravaram também anzóis, cacos de vidro – dizem – em suas pernas, que era para ele sentir na própria carne os irrecusáveis vestígios da realidade. Enfiaram gravetos verdes nos seus olhinhos perdidos. Meteram pregos seus ouvidos e goelas adentro. Enterraram estacas em seus pulsos. Fincaram flechas agudas no seu tórax e lanças profundas atravessavam suas axilas. Cortaram-lhe os longos pêlos das costas e rasgaram com lâminas de metal as suas faces geladas. Tiraram, por fim, longas lascas de suas carnes, numa derradeira manobra para sustar sua dança vencedora e já vencida.
Ele, enquanto isso, só ria, o maroto. Revolvendo os olhinhos nublados e provocando certas ondulações por debaixo da pele do seu rosto, que alteravam os volumes dos seus contornos. Mas cedeu, enfim, à eloqüência eficaz da força bruta. Cessou sua dança, já por fim privada de todo movimento. E agradeceu, curvando-se até praticamente o solo, num gesto humilde e meio sem fim, deixando-se ali depois, assim, entregue àquele abandono sem tamanho. Só então é que os que o perseguiam o abandonaram também, indo-se a rir.
Depois, noite alta, ele foi encontrado ali, deitado sobre o banco da praça, imóvel. Havia morrido por completo, ao que parece. O focinho e os pulsos ainda bastante inchados. Os lábios, secos. Os olhinhos apareciam muito, muito abertos, e no entanto vagos, sem nenhum horizonte ou conteúdo. Estava quase nu, naquele frio.
Os que abriram o cadáver, para a autópsia oficial, e o examinaram com científica curiosidade, declararam formalmente que morrera sem qualquer causa aparente, isto é, sem razão, sem porquê. E, portanto, sem que o seu permanente desaparecimento pudesse ser tributado a ninguém ou nada que fosse. Logo, caso encerrado.
Durante algum tempo ainda prosperaram certos rumores a seu respeito, e a propósito do ocorrido. Todos com características subterrâneas e cercados de sigilosos cuidados, de início. Mas quando tais rumores passaram a se insinuar mais publicamente, a atrair adeptos importantes, e suas ameaçadoras repercussões começaram a se expandir para além do desejável, foram sumariamente proibidos pela autoridade local constituída.  Surgiu até, por essa época, um pequeno movimento, um restrito grupo de estudiosos interessados em examinar melhor aquelas ideias, pesquisar-lhes alguma coerência ou algum propósito sutil subjacente, talvez. Mas foi logo asfixiado pela censura e pela pressão oficiais.
Não houve qualquer resistência, como seria mesmo de se esperar. E assim foi indo, indo, até que ficou banido, afinal, por meio de decreto municipal, todo e qualquer registro ou menção que fosse acerca da existência desse personagem. Sua memória foi-se diluindo, se desfazendo numa correnteza de amnésia e inconsistência. Até que nada mais dele restasse para ser lembrado. Por isso, na prática, ao que consta – e por via das dúvidas – esse personagem, de fato, jamais existiu.


Comente!