Automáquina

um dia, nunca mais

Quando aquele dia chegar, ele poderá perceber então o quanto já estarão escassos os seus cabelos. Insustentáveis, quase. Notará que os seus movimentos, embora continuem ágeis e bastante desenvoltos até, em sua autopercepção, serão contudo restritos, resumidos ao necessário. Experimentará, também, nesse dia, uma esquisita sensação de já haver pressentido isso tudo antes, em algum momento; mas não se recordará exatamente quando. E o seu corpo carregará então dores diferentes. E cada dor será de uma intensidade diferente, de uma modalidade diversa e sempre muito mais pesada do que até então. E cada dor dessas novas será identificada por um nome também novo, ainda desconhecido para ele. E cada nome merecerá um tipo de preocupação diferente. E cada diferença então fará parte daquele dia, quando afinal chegar.

Por volta das sete horas ele já estará acordando, provavelmente. Mas permanecerá imóvel, pelo menos meia hora mais. Impassível ainda, encolhido, num nó breve e contido sobre a sua cama dura, tomado de uma assombrosa inatividade. Seus olhos estarão abertos, entretanto, bem abertos. E os lábios já bastante secos. Sentirá seu ânimo ainda bastante magricelinho, frágil, sofrendo de uma espécie de desintegração contínua e constante. Sua pele será de uma palidez monumentosa, marmórea, espetacular. Aparentará padecer uma desagradável carência dos nutrientes mais fundamentais à sustentação dos mais básicos dos equilíbrios (mental, hormonal, químico, térmico, etc), e por isso mesmo não se moverá ainda. Enfrentará um abrupto surto de escassez do elemento tempo. Mas isso será somente o começo, ao que parece. Ele sabe.

Mas quando, porém, às oito em ponto uma das empregadas da pensão vier trazer-lhe o desjejum, ele já se terá levantado, por certo. Já terá cumprido a higiene mais imediata e, vestindo o terno puído de linho escuro, já se encontrará sentado à escrivaninha. Estará esperando, então, só esperando.

A moça entrará discretamente e deixará a bandeja sobre o pequeno balcão de madeira junto à parede. Ela vem com gestos humildes, mas não lhe dirigirá o mais simples bom dia. Ele também nem aí, nada dirá. Estará ocupado demais, nesse instante, cogitando e conjeturando, para qualquer esforço adicional. Por exemplo: porque de uns tempos para cá ele vem observando o fermentar de um clima meio sombrio, apático pra dizer o mínimo, ao seu redor? E isso envolvendo praticamente todos os hóspedes, funcionários e demais freqüentadores da pensão de Dona Mercedes, a Clara, ela mesma. Todos agindo como que ocupados apenas com assuntos outros e muito mais importantes, alheios completamente à sua existência. Contato contato mesmo, só muito raramente e a propósito de questões incontornáveis. Até mesmo os bons dias, pelo que poderá notar, terá sido abolido.

“Será que eu ainda existo?“, ponderará ele, naquele dia, então. Mas só para si mesmo, enquanto estiver observando a moça que acaba de retirar-se, muda como entrou. Nessa mesma hora poderia talvez pensar: “Será que ela sabe que eu estava, esse tempo todo, a observá-la daqui?

Aceitará a sua porção matinal com aquela displicência já habituada ao descaso, sempre surda, estéril, privada de gestos. Comerá, como de costume, desperdiçando migalhas, espargindo farelos pelo colo e pelo chão, deixando a bandeja grudenta, com o registro do fundo da xícara. Sua roupa ficará respingada de café, a lapela do paletó marcada pela baba que já principia por lhe ocorrer (numa aflitiva incontinência). Por fim, quando se der por satisfeito, afastará a bandeja (cuja retirada jamais presencia por completo) e andará alguns passos – morosos, débeis – pelo aposento. Depois tornará a sentar-se sobre a cama dura, para dar continuidade à cerimônia da espera.

Provavelmente ele já terá aprendido, naquele dia, a evitar – com certa arte e adestrada competência, talvez – os ataques perigosos que os olhares da razão às vezes se permitem, através das pupilas desprotegidas, diante dos espelhos. Haverá compreendido, a essas alturas, alguns conceitos bem importantes acerca de certas coisas da vida e do mundo. Por exemplo, terá aprendido a cuidar para nunca tornar-se alvo desses olhares – pois os alvos nunca estão a salvo – e como manter-se protegido daquelas centelhas que saem dos reflexos visitados. Por isso, eliminou-os de seu convívio, os espelhos. Desenvolveu técnicas com que substituí-los. Há anos ele faz a barba, higieniza-se e cuida dos cabelos (já tão escassos, afinal) e do demais da sua aparência, apenas a partir das imagens mentais que aprendeu a armazenar, classificar e manipular.

Saberá reconhecer, possivelmente, cada uma das rugas que levará suspensa, vincada na pele. E poderá até, se quiser, recompilar, cena por cena, as circunstâncias em que parou para sentir o desenvolvimento de cada uma delas, usando apenas para isso os recursos próprios da memória e algum tanto de imaginação.

Acreditará então, e sinceramente mesmo, ser possível ainda tornar a reconstruir-se novamente, algum dia, ou remodelar certos traços da sua face agora incolor, ou recompor-se um pouco frente a si mesmo. Por isso, continuará sempre evitando os espelhos e as superfícies reflexivas afins. Entenderá então porque alguns cegos sabem coisas que aqueles que simplesmente não enxergam ainda ignoram, ou nem sequer suspeitam que pudessem ser sabidas.

Seus olhos estarão, naquele dia, ainda mais opacos do que antes, ao que parece. Menos faiscantes, sem os trovões e os relâmpagos de outrora. Parecerão ir sumindo nas funduras de uma distância sem forma, sem conteúdo, germinada e crescida entre estacas de silêncio e submissão.

Uma gigantesca máquina de sombras atravessará o seu quartinho escuro nesse instante, a passos lentos – mas no entanto duros.  E ele sentirá o contágio irrecusável da passagem desse mecanismo. Provará da sua sulfurosa delicadeza, respirará do seu hálito vagaroso, artificial, a ponto de quase nem tentar resistir mais. E aquela máquina reprisará, então, em sua tela, ao passar diante daquele par de olhos arregalados, as velhas tristezas de sempre, com uma insistência ensopada de uma pegajosa nostalgia. E esse processo se repetirá indefinidamente, até a máquina desaparecer por completo.

Depois, ainda naquele dia – como faz, inclusive, nos demais também – ele abrirá o seu velho baú de reminiscências. O móvel gasto e farto estará repousando a um canto oblíquo do aposento. Dele se sabe já pelos odores, as lástimas que acumula, os pesadelos que armazena. É só se aproximar um pouco que logo se ouvirá, do mais profundo desse baú, a ressonância de antigas indagações reincidentes; resíduos de respostas recusadas; novas e velhas incertezas; problemas para sempre insolúveis; emoções e sentimentos incompletos; nomes e sobrenomes de pessoas já vivas ou ainda não; intuições verdadeiras e enganosas; restos de planos desfeitos; rastros de projetos inconclusos; incontáveis desatinos; etc etc.

Revolverá nervosamente, com as mãos trêmulas mergulhadas no caos do velho baú, o seu conteúdo. Encontrará, ao contato dos dedos, fugidios pássaros de areia imaginária, bicicletas azuis, brinquedos desejados ou outros engenhosos objetos da técnica, sortilégios da arte, efeitos da inspiração, coisas que jamais ganhou ou alcançou merecer. Alongar-se-á no tato de tais coisas. Deixar-se-á aí.

E mesmo sem saber bem o porquê, ele continuará com as mãos atoladas na goela aberta do seu velho baú de reminiscências. E verificará, assim, que restarão, entre os despojos que as traças não engolfaram, algumas ruas e lugares fotografados numa longínqua viagem, alguns dos seus diplomas aposentados, as suas saudosas desabotoaduras de revezamento, além de outros burocráticos apetrechos de identificação mais defeituosa ainda.

Além disso, no ventre do baú, nada mais do que imagens deterioradas, de coisas e pessoas remotas, imprecisas impregnações, lembranças que nem nome ou dono já teriam, presas lá dentro ou como que entaladas entre os nós das suas entranhas. E ele não fará nada, nenhum esforço, para sequer tentar resgatar essas memórias de lá. Afinal, tudo isso já não terá o menor significado mesmo para ele, a mínima importância, nesse dia.

E só lhe restará, daquele ponto em diante, fechar o velho baú de reminiscências e tornar a sentar-se sobre a sua cama dura. Aí começará, então, a desocupar-se – com absurda delicadeza – do seu carretel de rememoranças. E por entre as trincheiras e esconderijos dessas narrativas ele se esconderá de certas árvores fantasmagóricas, das quais desejará apenas não reconhecer jamais quaisquer raízes. E mandará que tudo seja tragado pelas pesadas giratórias do esquecimento. Parece simples.

Seus dentes doerão muito, é quase certo que sim, por aquelas horas, nesse dia. Mas ele já não deverá estar ligando muito não. É, pois não lhe sobrará muita coisa a fazer mesmo, a respeito disso. Será só esperar. Nada mais. E ele tornará a chorar, provavelmente, nesse dia, por causa disso.

Escondido, encolhido, sentado sobre a sua cama dura, semi-desfeita, trajando seu velho terno escuro, o linho todo puído de tanto lavar, com as mãos muito enfiadas nos bolsos, o queixo suavemente depositado contra o peito. E ali ele restará impotente, inerme diante do inominável, do poderoso receio de perder-se outra vez.

Soluçará, desconsolado. Como se já não soubesse, como se nunca tivesse podido conter isso que, naquele dia, nesse preciso instante, deverá estar começando a acontecer.

Naquele momento, então, aquela gigantesca máquina de sombras, abarrotada de obtusos e nervosos humores, atravessará o seu quartinho de volta, a passos lentos – e porém duros – no sentido oposto, povoada de imagens e projeções. Mas nem a voragem furiosa nem as ânsias de incêndio daquele agressivo mecanismo o atingirão agora, nesta sua segunda passagem.

Algum fiapinho de baba ainda descerá pelo seu queixo. Talvez o aroma da comida sendo preparada lá na cozinha o tenha feito salivar um pouco. Inocente, ela deslizará ao longo do seu pescoço, escorrendo até a gola da camisa, de onde irá, por pura negligência, manchar-lhe a gravata ou algo mais abaixo até. Mas ele não se moverá, ainda. Continuará aguardando, até que chegue a hora.

Ao meio-dia, pontualmente, descerá para o refeitório. Levará algum tempo, pois são tantos os degraus! Encontrará, naquele dia, como invariavelmente nos últimos dias, a sua mesinha ocupada – que sempre lhe fora reservada, intocável e preparada conforme suas meticulosas determinações. Procurará outra e sentar-se-á com o vagar e a exatidão habituais.

A comida, recém-servida, estará disposta em pequenas travessas, tigelas e outros recipientes afins. Ele abastecerá com lentidão e parcimônia o seu prato. E fingirá mastigar com alguma calma e dignidade a ração daquele dia (devido ao lamentável estado dos seus dentes e aos idosos problemas das suas aparelhagens digestivas).

Naquele dia, no entanto, ele não se levantará logo após o almoço, bem devagar e cuidadosamente, para ir observar a rua lá fora, sentando-se no banco de madeira lá da varanda. Não. Naquele dia ele permanecerá ali, sentado, à mesinha do refeitório, o prato ainda pela metade. Estará esperando, então.  Só esperando.

E esperando estará quando, naquele dia, Dona Mercedes, a Clara, ela mesma, vier para recolher as louças e encontrar apenas os restos dele ali, junto aos da comida, meio esparsos e dispersos sobre a mesa, já quase que indissociáveis uns dos outros.

E Dona Mercedes, a Clara, ela mesma, não se espantará nem um pouquinho ao perceber o quanto dele já terá morrido e o quanto ainda restará faltando.  E então – pois só então – ela irá poder notar que isso também não passará senão apenas de mais uma das tantas pequenas diferenças daquele dia. Ficará um pouco triste, é evidente, mas logo também verá que tudo tende a continuar sendo conforme sempre foi e ainda é.

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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