Automáquina

plataforma

Oriunda de mar aberto, a plataforma aparece. Ela avança retilínea,  decidida, em direção à praia. O mar agora é quase uma piscina: lento, morno: adormece. Nesse compasso, a plataforma se aproxima. Sobre o dorso tranqüilo das águas, ela desliza. Suave e porém veloz. Move-se sobre a superfície líquida com graça e desenvoltura. Não emite som qualquer, no entanto. Seus movimentos são leves, firmes, uniformes. Assim ela chega.

Para os banhistas e pescadores que estão na praia ainda a estas horas, aquela coisa lembraria, de início, quando vista de longe, o aspecto de uma prancha enorme, larga, flutuante.

Quanto mais ela se aproxima, todavia, mais e mais evidente vai ficando o quanto ela é constituída de matéria outra, como que de algum metal vítreo, embora meio plástico, mais para palha ou borracha. Algo impreciso, ainda indefinível.

Com uma espessura de uns trinta ou quarenta centímetros, suas bordas desenham um perfil incerto. Seus traços se alongam, se expandem, se contraem e se distendem, a cada vez e sempre, continuamente. Suas dimensões dir-se-ia equivalentes às de um campo de futebol, ou algo mais, não menos.

Ao se aproximar o suficiente da orla, ela para. Fica a poucos metros da areia. Estacionada. E espera.

Os observadores, poucos que são, permanecem suspensos, estarrecidos entre o inusitado e o surpreendente do espetáculo. Tensos, atentos, se entreolham silenciosos, e trocam impressões com gestos mínimos e muito discretos, para não perderem nada do que aparentemente está apenas começando.

Enquanto isso, ela, aquela coisa sobre as águas, parece que também espera. Respira, flutua e espera.

Ainda estacionada, sustendo-se confortavelmente sobre o quase imperceptível arrepio das ondas, como se à espreita de uma brisa sempre ausente, a plataforma parece dotada de condições que lhe permitem se locomover livre sobre as águas.

Sem motores nem mastros, velas, remos, leme, cordas ou liames, como um grande tapete flutuante, de consistência brônzea, mas flexível porém, e ao que tudo indica também muito muito leve, ela se mantém sobre a pele febril daquelas águas calmas, em tácita expectativa.

Os observadores até aí continuam inertes, prisioneiros de intensa expectativa, pois jamais tomaram conhecimento de algo semelhante, e realmente não sabem como agir, o que lhes compete fazer num caso desses. Sua postura, obviamente, é também de aguardar os acontecimentos.

Mas nada, durante longo tempo – horas e horas, talvez. Nada acontece. Alguns cansam da posição em que estavam e se sentam na areia. Os mais velhos, por mais obstinados e rigorosos, permanecem em pé, mas ficam mudando freqüentemente o lado de apoio, à medida que o peso do corpo lhes vai oprimindo as juntas.

Ninguém desiste, contudo. Nenhum deles se afasta de seu posto. O silêncio agora é completo. Até mesmo as crianças – não são muitas crianças entre eles, três ou quatro talvez – não se distraem e não afastam os olhinhos curiosos de cima da plataforma estacionada.

Deserta, sem movimento, a praia agora é uma insônia só. A noite já vai funda. É outono. E quando uma calma fria e pastosa se estende então sobre todo o continente e a noite se afirma ao redor de tudo, aí é quando surgem os Olhos.

Pouco maiores que uma laranja, mas de consistência e matéria bem diversas, e dotados de uma luz interna quente e pulsante, eles aparecem: um a um. Após um tímido perscrutar do primeiro, que parece liderar os demais, esses Olhos vão-se expondo.

São cerca de oito ou dez, ao todo. E se agitam e se alternam no ar, logo acima do ponto de onde brotaram, mais ou menos sobre o centro da plataforma. Num movimento respirante, sequenciado, em trajetórias matematicamente calculadas, ou como que manipulados por malabaristas invisíveis, os Olhos se projetam e se articulam no ar.

Nesse jogo porém eles vão adquirindo cores, tamanhos e volumes diferentes, e vão também produzindo sons de sopros, cordas, percussão, em consequência das variadas velocidades com que se mobilizam.

O ritmo que nasce então dessa intensa atividade, infunde nos observadores um incontrolável desejo de movimento. E eles dançam, todos, na areia da praia, formando um grande e fremente círculo.

E enquanto dançam, todos vão ficando nus, saltitantes de uma alegria incontível, e começam a rir e rir a mais não poder, por longo longo tempo, até o momento quando começam a perceber que estão, ao final das contas, rindo mesmo é de si mesmos – e uns dos outros. Aí parece que um antigo e incômodo escrúpulo lhes ocorre, assim de súbito, sem motivo, e a todos por igual. E assim, ao se darem conta disso, todos param de dançar. E quando se vestem outra vez e voltam-se para o mar, a plataforma já não está mais lá. Mas, afinal, esteve?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[imagem emprestada do WordPress]


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