Perpetuocontinuum

Os velhinhos

Estão ali, eles, à beira da calçada, sentados. São doois: um de cada lado da rua. O de cá, mais próximo do que parece ter sido um elegante palácio residencial, uma construção muito grande, grande e antiga, e aparentemente desabitada. O outro, no lado oposto, está a poucos metros da saída dos fundos de algo que deveria ter sido um hospital, uma delegacia amarela autônoma, ou alguma escola experimental abandonada; algo que certamente hoje destina-se a uso bem diverso.

Os velhinhos, aqueles, figuram ali agora já muito pacíficos, com seus corpos recurvados para a frente e para baixo, dobrados sobre si mesmos, formando cada qual um ângulo específico, às vezes oblíquo, um ângulo fatigado. Sentados daquele jeito, ambos, um de cada lado, eles permanecem quietos. Apenas esperam. Parece que agora sentem mesmo que algo está para acontecer: é só aguardar, então, só aguardar.

É nesse momento que um vento começa a descer, desde lá do alto da rua. Inicia com o expirar de um hálito meramente aparente, apenas uma incerta cadência que se insinua através e a partir do corpo vácuo do ar, um breve acorde se erguendo entre frágeis formas em movimento.

Depois, vem vindo num crescendo, num crescendo: algumas páginas, folhas impressas com palavras recentes, meio que atrevem-se a desencadear uma pequena dança, tímidas e tergiversantes, de princípio, diante dos velhinhos.

Mas eles nem as vêem. Continuam quietos, os olhos baixos, mirando apenas a calçada úmida, a poucos centímetros dos seus narizes.

Eles não as alcançam, àquelas páginas, e mesmo que as alcançassem: como é que as iriam ler ou soletrar? E se tudo o que houvessem aprendido em toda a sua vida estivesse ali contido, para sempre sendo re(de)senhado, quem sabe talvez há quanto já sendo tudo re(des)dito, sempre sempre e novamente? E se nessas páginas, parábolas e paródias se entrecruzassem, num atônito voejar de mariposas, respostas e respostas suas retinas adentro? E se, mesmo assim, seus olhos captassem os apelos silenciosos das mensagens que por ali transitam? E se, ainda, nada disso de nada adiantasse: como é que seria?

Agora parece que começa a escorrer algo para dentro dos seus ouvidos abertos. Algo como curiosas e intermitentes notas, derramando-se para dentro deles, através das suas orelhas enormes. Velhas ou novas, certas ou duvidosas, como conversas de corredor, essas notícias se inoculam fáceis.

Seus cabelos tornam-se azuis por um momento, alertados pelo vento que cresce novamente e os agita com melancólico desconforto.

Os velhinhos começam então a tagarelar. Inicialmente, só de si para si, muito quietamente, destilando os seus numerosos argumentos, às vezes entreparênteses adentro, no infraintramuros do seu próprio recolhimento.

Tagarelam – e tagarelarão – apenas por tagarelar, especula-se. Só por não conseguirem parar para silenciar: é a parte que lhes cabe deste lato gerúndio: e é só o que lhes compete, por enquanto. Mas apenas consigo mesmos, cada qual com cada qual. 

Com isso, o vento vai-se tornando já muito agressivo. E começa a trazer mais e mais páginas e páginas lá de cima, do início da rua. E estas agora vêm prenhes, densas de caracteres, marcadas de solucionosas expressões em biis– que eles, aliás, os velhinhos, nem sequer se quisessem explicar, conseguiriam; pois são centenas e centenas de milheiros de páginas escritas, que vêm, que vêm, e que os vão cobrindo por completo.

Eles permanecem ali, na beira da calçada, um de cada lado da rua, enquanto as páginas que vêm já chegam e já lhes vão tapando os contornos todos. Elas vêm trazidas e dispostas pelo vento, transformando os coitadinhos em duas pálidas estátuas, imóveis ídolos de papel.

O vento é forte, insistente, castiga. Os velhinhos, após tanto tempo de imobilidade, tantas horas em concentração, começam a se inquietar um pouco. Arrepios lhes percorrem as cordilheiras dorsais, e eles começam a se movimentar, inicialmente por meio de minúsculos e sucessivos avanços.

Ocorre que com isso, com esses movimentos, algumas letras caem das páginas, e ao cair algumas ficcamm qquiccanndo ffeeito conntass de vvidro ou bollinhass de ggudde.

E quando retornam à altura dos olhos, projetadas de volta após atingirem o piso duro do calçamento, vão formando sílabas rapidamente ilegíveis, compondo arranjos quase significativos, às vezes; mas que o vento ligeiro já vem e já ágil já desmancha.

E o movimento dessa dialética intensiva do vento consigo mesmo, então, faz mais vento ainda acontecer. E o vento novo que vem de lá vem voraz e poderoso muito mais ainda. Levanta as abas das páginas mais leves, e essas às demais vão envolvendo, num rodamoinho que tem por núcleo aquelas duas arqueadas estátuas de papel.

E quando o vento fica mais possante e mais violento, e vem e varre tudo, e vira tornado, e de tornado em ciclone numa passada; e se levanta e vem lambendo a calçada e a rua, dispersando pelo ar todas aquelas páginas e páginas, suspensas pelo tufo do furacão, aí é que desaparecem os paralelepípedos, a calçada e também os velhinhos, a rua, as casas, a cidade e tudo o mais quanto havia até aqui.

 

 

 

 

 

 

 

[conto publicado em “Perpetuocontinuum“]


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