Perpetuocontinuum

o sinfonímbalo

 

            Na entrada do labirinto ele já me aguardava. Saltitandinho, todo elétrico, os cabelos vermelhos, artificialmente encarapicolados, num pique-no-lugar lindo de se ver. Muito magro, alto, quase nu, saltitandinho: seria realmente de se ver!

Assim que eu chego, ele vem e já se apresenta. Dá um passo adiante e me estende a sua mão direita, iniciando um gesto de cerimoniosa e demorada reverência. Em retorno, eu o cumprimento, também.. . Com uma discreta inflexão na incidência do meu olhar sobre o seu, eu o cumprimento. E assim, nesse breve interlúdio entre uma miradita e outra, nesse ato ágil mas repentino, nós nos cumprimentamos : cumprimentamo-nos, portanto.

então eu olho para a sua mão, ali estendida: branca, albina bailarina que lépida se prepara para o rodopio; fria, essa mão, mas delicada, no entanto. E eu vou e simplesmente a tomo. [Ou será que é ela – essa mãozinha fina e poderosa – quem vem e a mim já me toma?].

E com um tranco seco (de súbito, um puxão), ele faz com que nós nos desloquemos. Ambos, enganjados [umnooutro ooutronum]. E nesse complexo nó de resistências e emaranhadas colaborações em recíproca e permanente oposição, nós nos movemos. E, apesar de tudo, nós nos movemos rápido – cada qual trazido pela mão um do outro – cada vez mais para dentro, para o fundo, ao fundo do fundo.

E dá-se então um tal de corre daqui, desce dali, acessa acolá, sobe à esquerda, vira pra cá, entra mais fundo, cai à direita, sai por ali, toma o retorno, volta pra lá, naquele labirinto de escadas, corredores, antecâmaras e postigos, ambientes estreitos, altos, fundos, dispersos e compactos ao mesmo tempo, contíguos e cambiantes, cuja profundidade, altura e quaisquer outras dimensões seria algo impossível de se calcular.

Vezenquando nos perdemos um do outro. E ficamos teempos, vaganndo, sem noção, sem noção. Nesses momentos, eu aproveito para descansar um pouco. Mas é, todavia, só um alívio provisório no ritmo da marcha, pois como os sons se propagam muito limpidamente aqui dentro, os ecos das nossas passadas ressoam a distâncias incríveis. E seria realmente muito fácil de se perceber se alguém estivesse amarelando ou desistindo. .. o quê – é de se supor – não seria nada conveniente numa circunstância dessas. E, afinal, o descanso que é o possível é o descanso que se deve desejar.

Outras vezes – e geralmente quanto mais convencidos nos achamos de estar irremediavelmente perdidos – quase que nos batemos com a cabeça, um na do outro. Só que, como na maioria das vezes nós estamos com os pés em bases divergentes quanto ao plano, ou simplesmente opostas uma à outra, ou então em perpendicular, o susto é tal – pois nos encontramos em ângulos os mais inusitados, controversos e assustadores até – que saímos correndo novamente, quase sempre em direções opostas.

Mas tem sempre um momento em que nos reencontramos novamente, cara a cara [ou quase isso, dada nossa notória diferença de estatura]. O importante, todavia, é que decidimos que, dali por diante, ele é quem iria me conduzir.

Então ele me olha, convocando, e simplesmente faz com que eu o siga. Faz-me ir após si. E sim, e só. E eu o sigo. Já às vezes correndinho; outras vezes muito menos (como se da espécie dos  felideum  resolutus  fôssemos).

Logo se pode observar que o Sinfonímbalo é um ser que se desembaraça bem no campo do espaço: locomove-se com uma desenvoltura feroz, implacável, que resolve. Dá para considerar, até, que ele se desenvolve muito felinamente naquele ambiente.

E assim vamos nós: ele me puxando, mais pelo exemplo do que propriamente pela mão, pois nem nos tocamos. Sua gadelha escandalosa me guia e me orienta. E eu apenas o sigo.

E ele vlói rápidil penetrandem labirintis adentrum : e eu nele me fio, um tanto voluntária, outro tanto ingenuamente. .. Magro, embora alto, muito alto: quase o dobro da minha estatura. E delgado também. Ele é assim um tipo bem esguio.

O labirinto é pouco para os seus movimentos, ao que percebo. Pois ele corre tanto, e tão desenvoltamente, que não dá para duvidar de que não saiba exatamente o que está fazendo. Seus passos são seguros, dominados por extraordinária convicção, e seguem um ritmo pensado, uma seqüência prevista e previamente programada.

Há muitas salas interessantes neste quadrante do Salão. Ele me mostra uma a uma, nunca deixando de enfatizar um detalhe ou outro que mereça a minha atenção (como aquela sala em que tem curso, ao que parece, um julgamento público; ou aquela outra que parece um anfiteatro sendo engolido por lentas chamas).

Mas ele não quer que eu entre em nenhuma delas, não. Por mais convidativas e atraentes que se apresentem. Prefere preservar o meu direito de escolha, abstrai o Sinfonímbalo.

O fato de não eu escolher nenhuma das salas, agora, não deverá implicar em renúncia ao direito de fazê-lo a qualquer tempo, já que é um direito que me assiste e me pertence. Tendo inclusive preservada, ainda e ademais, a prerrogativa de eventualmente jamais vir a exercê-lo.

E na mesma direção que ele corre, então, eu o acompanho. Sua gadelha ensolarada – embora borrada de restos de coroas antigas, cujos reinos padecem de total inexistência – drapeja desfraldada, alegórica como flâmulas ou bandeiras afins, e me permite acompanhá-lo bem de perto. Ela é o único fato em que confio (e ainda assim desconfiando), neste momento.

Entramos numa próxima à esquerda e logo nos deparamos com uma parede enorme. O Sinfonímbalo estica o braço (olhando ao mesmo tempo para trás, para assegurar-se de que eu estou atento) e me demonstra, apenas com esse lance, que a parede é transponível, atravessável; e, mais que isso: que ela é imaterial. E a transpassamos, ambos: primeiro ele, depois eu.

Do outro lado, tudo calmo. Mas ainda sinto a sua mão nervosa a me apressar. Ele me chama, e me puxa, correndinho pelos corredores que se multiplicam à nossa frente, carregando-me com ele. E após um longo trecho em ziguezague, eis que um caminho conhecido, uma rua preexistente em minha memória, nos conduz a um local onde eu sei que já estive antes.

De repente ele se solta da minha mão e dispara correndo na minha frente. Tenho o ímpeto de segui-lo, mas noto que ele logo pára, e parece que me aguarda.

 

Estou, então, novamente à entrada do labirinto. E percebo que ele se aproxima. Está vindo. Merda, não consigo conter este meu cacoete de ficar assim saltitando. É que ele parece que demora. Fico ansioso!

Quando ele chega, porfim, eu faço questão de apresentar-lhe as minhas mais respeitosas reverências, saudando-o larga e convenientemente.

Embora muito mais baixinho do que eu (não me chega à cintura), com o corpo coberto por umas coisas coloridas, algo lhe envolvendo os pés (algo que me parece macio, confortável), aros ao redor dos olhos, que rebrilham conforme a incidência da luz, filtrando um olhar meio atônito, meio curioso, intranqüilo. 

Eu, porém, capto nesse olhar um sinal de resposta à minha iniciativa gestual, o que entendo como um cumprimento da parte dele. Cumprimentamo-nos, assim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Comente!