Automáquina

naquele prédio

Ali está o sujeito, aquele. Digamos que o seu nome seja Gustavo (embora pudesse ser Tiago, Ângelo, ou qualquer outro). Seu escritório fica no décimo-quarto andar.

É uma sala ampla, bem iluminada, bastante funcional até. Poucos móveis, mas de bom estilo, leves e simpáticos. Tudo, porém, apenas ali disposto para produzir – e manter – uma sólida sensação conforto.
Daria para ficar aqui durante horas, semanas, descrevendo aquele escritório em seus mínimos detalhes, o bom gosto dos objetos decorativos, a perfeita simpatia do corte das cortinas, das cores do tapete, dos rocamboles de madeira de alguns enfeites.

Enfim, daria para ficar aqui apenas e ir bebendo bem lentamente, com um único longo passeio de olhar, as coisas e suas harmoniosas relações com o ambiente, sim, mas é neste exato instante que ele resolve levantar-se. Deixa a grande poltrona de diretor para trás, girando sobre si mesma, e vai até à janela.

De lá, com o auxílio de uma luneta, propositalmente ali posicionada, ele observa o movimento na rua cá embaixo, o trânsito, o comércio, as pessoas e seus afazeres, a praça que fica defronte ao edifício, a cidade e seus afãs.

Nem os odores externos nem os sons da rua o alcançam em seu refúgio: apenas um murmuriozinho indecifrável se misturando à suavidade do piano que se derrama do aparelho que ele acaba de ligar com um toque no controle remoto.

Com pequenos ajustes no equipamento óptico, ele vai focalizando melhor a rua, o movimento, depois a pracinha com seus bancos, o chafariz ao centro, os pombos debicando a calçada a cata dos grãos dispersos, as pessoas que passam, omundoandando.

Quando ele me flagra, porém, e nota que eu o observo também, quase posso perceber daqui o rubor subir às suas faces. E quando sinto que ele reconhece isso, constato então que ele se disfarça muito bem. Mas eu também me disfarço bem, e finjo que nem me toco de nada disso ainda não.

Ele ficará ali então, detido, curioso, prisioneiro daquela sinistra apatia, meiazul meio luzlilás, a me observar.

Eu aqui, na pracinha, sentado, quieto, ora olhando as pessoas a passar, ora considerando os pombos, ora fazendo rápidas anotações num bloquinho que retiro do bolso e que logo torno a guardar. A tarde está calma, o tempo parece propício.

Agora o telefone toca insistentemente sobre a sua mesa, agredindo-o com irritante violência e interrompendo sem a menor cerimônia a sua concentração. Ele atende: é a secretária anunciando a chegada do doutor Victor (bem, talvez esse fosse um Raul, ou Ricardo, como é que se há de saber?), que o aguarda na recepção. Em seguida o doutor Victor entrará na sala.

Cumprimentar-se-ão muito tecnicamente, e logo ficarão frente a frente, sentados à mesa de reuniões. A conversa será breve. Ambos são precisos nos seus gestos, econômicos nos comentários. Estão com pressa, ambos, não têm o dia todo.

O doutor Victor é portador de informes que, embora o aborreçam – vê-se pelas contrações do cenho –, são também do seu máximo interesse. Traz péssimas notícias, pelo jeito. Temas relacionados a dívidas, impostos, prazos, falência, perda de patrimônio, processos; eventualmente prisão, talvez sanções mais graves até, etc etc.

O relato, no entanto, é curto, direto, duro. Não constitui, todavia, grande novidade. Era algo já esperado, dada a desastrosa evolução dos negócios ultimamente: – Isso é tudo, então, doutor? – Sim, manteremos contato. – Obrigado. – Até logo. – Até.

Em seguida interfona liberando dona Margareth (ou Magda, ou Marta, tanto faz) do restante do expediente.

Ele agora abrirá a primeira gaveta à sua esquerda, onde acumulam-se papéis em profusão, compromissos vencidos e suas notificações respectivas, moratórias e multas sucessivas, cópias de penhores, hipotecas, títulos.

Fecha-a em seguida, emitindo rápido suspiro. Na segunda encontra um vidrinho de comprimidos quase vazio, alguns níqueis em moedas estrangeiras, fotos, recortes, cartões, frágeis memórias de épocas talvez melhores. Fecha-a também.

Ao iniciar o movimento seguinte, porém, detém-se por um instante, e fica analisando. Contempla a sua mão entrando na gaveta, com suas mil contorções: autoctóides crocodáctilus, classifica.

Depois prossegue, com os olhos fechados, tateando, no efeito de melhor explorar o seu interior.

Vai indo vai indo, até que se depara com um objeto frio, duro, pesado. Precisa empregar certa força para arrastá-lo para fora. É grande, mortal, e está carregado.

Manipula-o com a destreza de quem conhece, sabe do que se trata; como quem domina as técnicas do uso e do manejo daquele instrumento.

Com a arma em punho, ele retorna à janela. Reposiciona a luneta, e com o seu auxílio faz a mira. Demoora-se na mira: ele é cuidadoso.

Eu continuo sentado aqui, quieto no meu lugar. Só olhando, sondando, assuntando, eventualmente anotando.

Ele agora vai e abre a janela, para não atrapalhar na hora do disparo. Assim que a abre, porém, sente já o bafejo morno e oleoso da tarde, com seus barulhos e vapores.

Anda um pouco ainda lá por dentro do seu escritório, girando a pistola, com o indicador na guarda do gatilho. Retorna à mesa e apanha, na terceira gaveta ainda aberta, um equipamento adicional, um pequeno complemento à ferramenta que empunha.

Rosqueia-o na ponta do cano, enquanto se dirige novamente à posição de tiro. Mira. Mira e desfere: Páanf! Sente no pulso um tranco seco, breve, abafado.

Neste exato instante um pombo é alvejado, a poucos centímetros do meu pé direito. Páanf! Gritos, correria na praça. Páanff!

Ninguém ouviu os disparos, mas um homem geme e se contorce na calçada logo à minha frente, as mãos e o abdome encharcados de vermelho. Um outro, um velho, eu creio, ao ladinho daquele, dobra-se sobre os joelhos, atingido no pescoço.

Só eu não me movo. Permaneço aqui sentado, quieto, olhando, às vezes escrevendo.

Ele fica irritado com as falhas de pontaria. Esmurra o ar. Desarruma, por descuido, a regulagem do seu aparelho de observação. Derruba-o sem querer, enroscando-se no tripé que o suportava. Rilha os dentes, tanta raiva, tanta ira.

O barulho que sobe da rua o incomoda, pois juntam-se neste instante mais gritos, sirenes, grande tumulto.

Agora ele está puto de verdade. Contrariado mesmo. Tudo deu errado até aqui.

Considera, então, primeiramente a janela aberta, décimo-quarto andar: seria uma queda e tanto, certamente.

Depois cogita sobre aquela arma em sua mão. Ainda dispõe de alguns disparos. E só precisaria de um.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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