Contræncontro

joão

joão não é ninguém. ou melhor, joão é um ninguém, um joão ninguém. sem ninguém, joão não tem nada. não tem nem um sobrenome. e ademais acha também que não tem nada que querer ter qualquer razão para ter um nome. pra quê?

joão entende que vive bem, assim, desse jeito. e, além do mais, nem sabe mesmo como isso se dá ao certo, apenas o pratica como se de há muito o já soubesse. ora, não ser nada ou ser um ninguém… dá praticamente na mesma, nas contas de joão.

mas não se vá pensar, por isso, que joão não pensa nada.    joão pensa,  pensa sim.    pensa até demais, às vezes.  joão é que nada diz.  para ele, parece, o melhor momento é o de silenciar, tanto sempre como quando é apenas necessário – nunca antes, nem demais. 

joão vive só.   mora sozinho, numa casa ampla, de casal, azul, muito azul, muito, construída bem lá no alto da avenida principal,   é.

e agora joão constrói muro.   e muro que joão constrói cerca sua casa, avança mais e já alcança o meio da rua.   mas construir muro faz joão ficar muito cansado.   desde quando decidiu atravessar a avenida construindo muro, joão pôs-se a fazê-lo com tanto esmero e interesse que só vendo.   e agora parece que já joão vacila, hesita, amarela? já já joão começa a sentir-se fraquinho, meio como que desistindo?   mas não desiste não, joão, seja mais obstinado, rapaz!

é intenso, não há dúvida, o esforço de adensar a massa, movendo os cotovelos sempre naquela velocidade pastosa, assentando cada tijolo sobre cada tijolo, elevando a posição, erguendo o cerco, levantando, nível a nível, os limites daquela arquitetura cinza.   é trabalho duro, sim.   não, joão não acha que seja lá tarefa nada muito confortável esta a sua não, diga-se o correto.   mas, já que se dispôs..

isso sem falar ainda que há  a constrangedora responsabilidade de ter que ficar alijando transeuntes intrusos a todo instante, avisá-los do contexto, demovê-los de seus intentos motrizes, dissuadí-los, desestimular seus ímpetos de passagem.   joão pensa que uma boa obra como a sua precisa ser protegida para não correr riscos, sofrer danos.   há que acautelar-se dos prejuízos.

seus vizinhos, contudo, não ligam.   seguem a vida, cada qual na sua.   cada qual cada qual, filosofa joão.   alguns deles até o incentivam, fingindo ignorar os acontecimentos da avenida.   o muro, em si, afinal, pouco transtorno lhes causa, pois boa parte do tráfego já sofreu um pequeno desvio e passou a ocorrer duas quadras distante dali, desde que joão chegou.   a cidade, aliás, um labirinto, populoso de enigmas, chapéus, bares, mesas, a massa convulsa das conversas alheias de todos os dias, desdidimadrugadinhatébemdipoisdidinoitinha, deixou de ser a mesma a partir de quando joão para cá se transferiu.

sente-se cansado, e de todo modo sem as menores condições de.  ele é muito sensível.   muito delicado, é, joão.   é como se ele fosse um ser recém-nascido.   requer cuidados, atenção.

mas não é bem nisso que joão pensa neste momento, enquanto descansa encostado contra a parede lateral da sua casa ampla, azul, de casal.   joão pensa é que jamais saberá contar quantos tijolos terá precisado usar para construir esse muro.   quando joão pára, porém, para contemplar o efeito do seu trabalho, e vê ali que é algo tangível, mensurável, material, aí mesmo é que ele se sente recompensado, pago, premiado, quase feliz. 

faz Grande Coisa, pensa joão, ao erguer esse muro que atravessa a avenida. Grande Coisa!, pensa ele.


Comente!