Contræncontro

historinha

 

Quando éramos crianças ainda, todos nós, houve um momento em que um grande e veloz touro azul entrou pela janela do nosso quarto, não houve? – me avise se eu estiver mentindo, tá!

Era noite. Fazia escuro. Sentimos então um certo medo, vamos admitir, mas que não chegava a ser muito grave não. Tipo um temor ingênuo e pueril, mas não era pânico, terror, isso não, não é mesmo?

Seria, de fato, um enorme touro azul, e tão criteriosamente construído a partir das nossas fantasias – e de outros elementos por demais eriçados de energia das nossas imaginações, que nós, de nosso ângulo, nem sequer entender aquilo conseguiríamos, caso quiséssemos, naquela ocasião.

Tratar-se-ia, bem se vê, de algo complexo demais para o alcance de crianças daquela nossa idade. Era fácil criar o bicho, dar-lhe poderes voaçantes, ou outros, e atraí-lo ao nosso quarto. Mas daí a explicá-lo, já seria exigir demais de nós, você não concorda?

É certo que aquele touro nos perseguiria durante uns quinze minutos por dentro do nosso quarto, subindo e descendo pelos móveis, a mil por hora, produzindo um zunido de jato à sua passagem, voando atrás de nós. Mas, não nos alcançando – velozes que éramos! –, logo desistiria. Animais como esse também se cansariam: haveríamos de cuidar disso logo ao imaginá-los.

Deitar-se-ia então ofegante a nossos pés e ali cumpriria os trâmites da sua simpática diplomacia bovina, repetindo lances dos melhores rituais de sua humildade mais doméstica de animal criado.

E seria tamanha a sua aparente fragilidade. Tanto, que as menores oscilações do ar que surgissem em nosso quarto já o carregariam pelo ar, a pequenos golpes, como se fosse de papel ou de algo mais leve ainda, em vacilantes entrevoos através das nossas pernas desnorteadas, debaixo da cama, da nossa escrivaninha, por trás dos móveis.

Quando ele se acalmasse, todavia, voltaria à nossa presença e ficaria ali ainda por algum tempo, detida e gratuitamente, a romancear um pouco a nossa infância. Deitado, naquela sua posição de subordinada expectativa, na esperança de que determinássemos alguma coisa nova qualquer para ele fazer. Mas, como estivéssemos nos cansando já da sua companhia e nada ordenássemos, ele passaria a nos observar, com seus olhos grandes, vermelhos, pensativos.

Aparentaria, naquele momento, ser um touro possuidor de extensas sabedorias: antepassadas, presentes e futuras (principalmente futuras). Mas disso, dadas as limitações da nossa rematada ignorância, nada poderíamos fixar.

Nós – que éramos todos ainda muito crianças naqueles dias -teríamos visto então, um pouco mais tarde, aquele reluzente touro azul levantar-se, atravessar correndo o nosso quarto e, após despedir-se numa suave curvatura, tomar o caminho da janela para desaparecer de diante dos nossos olhos, para sempre. Depois disso, não o tornaríamos a ver nunca mais. Você não lembra?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[imagem emprestada daqui]


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