Contræncontro

gatos

Os Caras chegam e pegam a cabeça do rapaz e a enfiam, com toda a força, para dentro de um saco sujo, onde aguardam sete ou oito gatos vivos, presos há vários dias (só com água e ração mínima).

O moço está  quase nu e tem as mãos atadas, às costas. Não pode mover-se com muita desenvoltura, logo se nota. Depositam-no em uma cadeira de palha, velha, bem ao centro do salão. Está sentado, mas parece meio curvo para a frente, como que se encolhendo, um tanto envolto e dobrado sobre si mesmo.

Mas eles, os Caras, não se alteram. Permanecem impassíveis, na deles. Nem mesmo diante do lancinante silêncio que aquele moço ali produz, eles sequer se movem. Sempre naquela posição, com os pés e tornozelos já muito para dentro de um grande recipiente de vidro invadido por formigas lilases, que lhe puseram ao dispor.  Não, os Caras, eles realmente não ligam. Acham natural até.

A seguir, após aquela onda de falso sossego se recolher de volta ao lugar de onde nunca deveria ter saído, ouve-se alguma coisa nova acontecendo. Inicialmente, apenas o frágil  e oscilante  farfarrruflar dos gatos no movimento compulsivo de lacerar as carnes daquele sujeito que ali estará, segundo consta, exatamente para isso mesmo.

Mas o rapaz, porém – e com certeza por estar com a cabeça e os sentidos muito ao alcance das garras e patas em alvoroço no oco do saco sujo – ouve apenas coisas outras (e seus ecos afins), muito embora sem entender bolhufas do que estaria acontecendo. 

Ele ouve o pulsar da sua própria bomba cardíaca, lá dentro da caixa, prestes  a   a    a     ; ouve o ziiíízz dos guizos das cascavéis que lhe avultam dos nervos dos braços e seguem em direção às pontas dos dedos; e ouve também os passos, os deles, dos Caras, que se aproximam, em inúmera maioria. 

Quanto aos gatos, o rapaz aquele ali apenas e malemal nota o seu serviço acontecendo. E sente que já não há mesmo tempo para ficar espreitando as intenções  das suas garras afiadas, sabe-se lá desde quando, quantas que são! 

Mas isso não é tudo, ainda: tem agora as formigas. E como trabalham lentas, essas infelizes! As coitadinhas devem andar cansadas, decerto. É bem possível. Sua tarefa resulta-lhes muito penosa às vezes, embora elas sejam muitas, e disciplinadas, e extraordinariamente fortes. Acontece porém que os pés do moço, enfiados no recipiente que elas invadiram, são simplesmente gigandantescos, interminensuráveis, sem anteparâmetros para consideparações. E quanto mais elas os dilaceram, com suas afiadíssimas tenazes naturais, tanto mais tecido e pele e osso e pêlo reaparecem.  

Mas elas não desistem! É bem próprio mesmo da sua espécie, que não desistam. Sua espécie aliás que – diga-se – está  há  muito mais tempo neste lugar – bastante habithaadt, por sinal – do que a do jovem de cujos pés elas, leeentamente, las­civas, lascam tiras.

Agora, é preciso dizer, ademais, e se possível com a autoridade de quem sabe o que está  dizendo, que a estrutura de vidro em que se encontram essas formigas nunca esteve fechada, absolutamente. Antes ao contrário: elas, as formigas, ali estão por deliberação e responsabilidade inteiramente próprias. Talvez porque gostem de tirar lascas daqueles pés e tornozelos que ali estarão, segundo podem supor, para essa exata finalidade; mas talvez também não, nada disso.

Já os felinos, eles, em geral, que são seres bem mais selvagens, já pela sua própria natureza, parece que só estão a fingir conviver aceitavelmente com o desorganizado, caótico e doméstico estado de civilização em que os caras,  todos – assim como aquele rapaz, inclusive, e os outros – chegaram e estão agora e de agora em diante estarão, como organismos infinitos que se desenvolvem em desordem. É é muito antinatural que não gostem nada nada disso. Seu constrangimento é claro, evidente.

Aqueles sete ou oito mamíferos carnívoros digitígrados, de sua parte, só fazem é ir rompendo, sem pressa, a traços de garras, golpes de unha, lanças, dentes, a máscara imóvel do rosto do rapaz aquele ali. Pois é, os gatos que eles, os caras, escolheram são gatos especificamente treinados e especialistas até em como dissimular as mais leves suspeitas de quaisquer indícios de receio ou remorso enquanto laceram, com inexprimível facilidade, as faces serenas dessa sua vítima tão jovem e tão frágil em si mesmo.

As cascavéis, enquanto isso, evoluem, num balé de mais de trezentos mil mirabolantes malabarismos, partindo sempre de bem pra lá do fundo das áreas mais internas dos nervos dos seus braços (dos dele, é claro, do moço aquele que ali está, e que traz as mãos firmemente atadas às costas). Às vezes parece até que elas estão querendo arremeter violências terríveis contra os órgãos dele, do moço,  posto que são, com todas as suas reptilezas mais cobris, não mais do que réplicas inúteis, espelhos enfemeninos, muito embora as matrizes sejam sempre as mesmas -, do fenômeno da força e da delicadeza, quebradiça, que se manifesta nos seres noturnos, tão indefesos, tão vulneráveis, que são. Serão elas, acaso, essas cobras, para ele, sintomas de alguma ilusória nova sensação que não o transitório império das capacidades? Ou, muito embora, nem isso: dá-se apenas que tudo se parece exatamente com outra coisa qualquer, que não é, afinal? Ele, o rapaz, não sabe, de fato. Ele apenas ouve, enquanto isso, além desses gui­zos, mil diversificadas coisicas outras mais.

Porém, quando finalmente as garras duríssimas dos gatos começarem a atingir os ossos do seu crânio, ele não resistirá, não, mas nem recuará também, não, nem um pouquinho. Daí, com a cabeça enfiada já muito naquele saco, com sete ou oito gatos vivos lá dentro, amotinados, alterados, movidos a puro instinto e a pânico, a rasgarem-lhe as carnes quentes do rosto, quando esse choque realmente ocorrer, daí Sim, daí refulgirão lampejos luminosos pelas vidraças do salão, trovejará longe, ao fundo. E quando partir-se a matéria óssea, finalmente, espatifando-se abaixo de golpes desferidos com verdadeira ânsia de destruição, será possível então enxergar o que é que há lá bem lá dentro da cabeça do rapaz aquele ali. Se é que algo há.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[imagem emprestada daqui]


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