Perpetuocontinuum

decidiu desfazer-se de si (III)

 

 

(continuação.. .)

 

 

 

 

 

Pouquíssimo movimento na zona de isolamento (cerca de três ou quatro quarteirões inteiros). Uns policiais fazendo sua ronda; o pessoal da equipe técnica de apoio; os engenheiros de detonação; a equipe de segurança… Crescem o silêncio e a expectativa.

No [seu] apartamento, enquanto esteve nele, no nono andar, sempre sozinho, pouca mobilidade lhe era permitida, é a verdade. Pequeno e nada funcional, restava permanentemente vazio, isento de objetos. Móveis mesmo, não dispunha de nenhum. Ele próprio dormia no chão, às vezes, encolhido, sobre papéis velhos e algumas folhas de jornal, pesadas de notícias mortas, que conseguia coletar andarilhando pelos parques e praças das imediações. Outras vezes, nem dormia. Suas pálpebras simplesmente recusavam-se a se fechar.

Por isso, no geral, ele encontrava também enormes dificuldades e empecilhos para movimentar-se ali dentro. Tudo lhe era muito dificultoso, restrito, obstado. As peças dos seus aposentos, sempre extremamente mínimas, resultavam delgadas, apertadinhas. (Nalgumas ele jamais conseguiria entrar; noutras, só de cócoras, ou apoiando-se com as mãos no chão, e enfiando-se de ré, primeiro os pés).

Vivendo isolado, durante o pequeno período que o ocupara, e ilhado em sua solidão, às vezes ele sentia que precisava encontrar algo com que se ocupar, para não entregar-se em definitivo à inércia.

Tinha dias, então, por exemplo, que ele decidia fazer-se de bola, e simplesmente saía rolando pelo pequeno apartamento, com o corpo todo enrodilhado sobre si mesmo, batendo-se contra as paredes e as molduras das portas. Aparentemente não objetivava nenhum resultado específico com isso. Não era um jogo. E mesmo assim, é de se notar que ele raramente se machucava; embora, por certo, esse esforço lhe doesse bastante.

Havia momentos outros, todavia, em que ele preferia pendurar-se na janela, pelo lado de fora, depontacabeça, sustentando-se no parapeito apenas com as pontas dos pés. Mantinha-se nessa posição durante horas, horas, até se encher, ou enquanto o tumulto dos curiosos e a algazarra das crianças lá embaixo não o deixavam amuado.

Outras vezes, normalmente à noite, ou quando chovia, ele procurava um cantinho, quase sempre o mais escuro, do seu apartamento, se acocorava e ali se deixava quieto, imóvel, teempos, até notar o início de uma certa aceleração no crescimento dos pêlos do seu corpo. Cabelos, barba, sobrancelhas, cílios, pêlos pubianos, das axilas, orelhas, narinas, enfim, tudo o que pudesse constituir-se em cerdas e fios, vinha-lhe para fora como num jato, numa profusão incontrolável, até ele tornar-se uma enorme massa peluda, disforme. Nesses casos, era a muitíssimo custo que conseguia continuar respirando. O processo era sempre muito estressante. Mas esse estresse todo era atenuado primeiro pelo fato de durar muito pouco, minutos talvez; e depois porque certamente nenhuma seqüela física permaneceria.

Em outras ocasiões, não achando nada melhor com o que se ocupar, ele simplesmente permitia-se explodir. Uma explosão ligeira e já de boas proporções, é o que lhe acontecia nesses momentos: stoummp!!… e lá se ia ele, dispersando-se em milhares de pedaços por todos os cantos do apartamento, Será viável, ainda, que eu me vá?, desmembrando-se em miríades de densas bolhazinhas, dedicadas a explorar cada milímetro daquele estreito espaço: indo de labirinto em labirinto: indo ao íntimo último dos seus recantos todos; indo e indo… e cada pedacinho desses (dele) também ia sofrendo suas próprias explosõezinhas, numa cadeia que obviamente tenderia ao infinito, não houvesse, por fim, o momento de parar – que raramente era ele quem escolhia – e começar a reverter, numa retroação igualmente incontível e incontrolável…

Sabíamos que não nos pertencia – o edifício –, que não era nosso. Mas mesmo assim nós o tínhamos, pois ali estávamos instalados, sem resistências ou objeções. Dessa forma, sentíamos também que ele era nosso: já não bastava a posse, efetiva e sem violência, para prová-lo? Chegamos trazendo apenas a intenção pacífica de ficar. E fomos ficando, enquanto dava.

Hoje não deu mais. Bem cedinho fomos informados – com bastante calma e objetividade até – pelo comandante do destacamento especializado, de que deveríamos nos evadir imediatamente do local, pois ele tinha ordens severas, e que seria o melhor para todos se tudo transcorresse pacificamente, e coisa e tal… E para agilizar ainda mais as providências de despejo, fomos prontamente auxiliados pela disciplinada equipe do grupamento que o acompanhava.

Ao ter-se à rua, agora, basta dispor-se e ir em diante. Ele só precisa dar o primeiro passo, acionar a máquina, para começar a ir.  Simples assim… Será?  O silêncio que se segue é uma resposta que intranqüiliza… mas, de saco cheio e já meio cansado de apenas estar ali, ele estarta um movimento, e desanda a caminhar.

A paisagem, reconheça-se, invaria bastante. Um cenário quase lunar, poder-se-ia dizer, sempre num sépia estranhamente doloroso e profundo, invade-lhe o campo de visão. Enquanto ele anda, atravessando o campo de isolamento, vai-se deparando com outros grandes imóveis, extensos, que esqueletam naquela inércia – todos já com qualificados sintomas de abandono, expectantes, silentes.  

Quando não deu mais de agüentar, todos tiveram que sair, então. E o último de nós sou eu…

 

Retida após os cordões de isolamento, aglomera-se uma pequena multidão. Um destacamento de trânsito foi prontamente alocado para garantir a inviolabilidade dos limites sob seus cuidados. E com o seu uniforme escuro, seus escudos de acrílico, capacetes de beisebol, os olhares ásperos, ali estava, posicionado e pronto para conter o assédio dos mais impetuosos, se fosse o caso, e assegurar o respeito que a ocasião impõe.

Mas ocorre que, neste exato instante, por uma afortunada coincidência, o helicóptero dalguma autoridade importante vem pousar próximo à praça central, atraindo de imediato o interesse e a atenção da massa curiosa. Com isso, ele consegue passar pela galera que o acompanhava com crescente interesse e expectativa, atravessando o cordão de isolamento de dentro para fora, até sair da área cercada, na maior das tranqüilidades.

E, para não arriscar ser assediado após o helicóptero sair, ele trata de logo ir-se embrenhando pelas entranhas do bairro, buscando as ruas mais laterais e colaterais dentre as afluentes menos movimentadas, distanciando-se das principais. 

Ele anda, anda, dobra esquinas, quebras quadras, atravessa praças, toma à sua esquerda, e novamente à esquerda; depois segue em frente, até entrar bruscamente à direita lá adiante; anda mais meia quadra; atravessa a rua, mas já tomando novamente a direção oposta, e avança voltando por onde vinha; sobe a ladeirinha que recém descera, e segue adiante, ou seja, ao contrário disso tudo, sempre na trajetória inversa, até dar nos portões dum pátio muito amplo, agora vazio, nos fundos dum prédio grande. Estando tudo muito quieto por ali, e não vendo ninguém de vigia, ele resolve pular o muro. É um estacionamento, ele reconhece. E é o do prédio de onde saíra havia pouco.

Sem deixar de se chocar um tanto com isso tudo, ele dirige-se diretamente à porta que comunica as garagens com o núcleo central do edifício, junto ao fosso dos elevadores (cujos motores e mecanismos reaproveitáveis haviam sido sacados muito diligentemente pelos funcionários da Companhia, assim que a desocupação se consumou). Ele entra então, e logo encontra a escada. Toma a direção dos primeiros degraus, e já começa a subir, correndinho.

No cronômetro do engenheiro responsável, começam a ser consumidos os derradeiros segundos antes de tudo [novamente] virar pó.

 


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