Perpetuocontinuum

decidiu desfazer-se de si (II)

 

 

(continuação.. .)

 

 

 

 

 

Aproximando-se muito cautelosamente, ele vai e enfia a cabeça para dentro através da porta entreaberta, para sondar, perscrutando o vazio, interrogando o silêncio. Logo descobre que aquela luz provém dos derradeiros estertores de uma lâmpada, esquecida num dos cômodos mais interiores do apartamento; mas ainda não dá pra saber direito de qual deles.. [mas.. a energia não fora cortada há dias atrás?] . .

Entra, assim mesmo, e já vai atravessando o estreito corredor que dá direto na saleta de estar; que por sua vez é contígua à cozinha; e esta liga-se a uma estreitíssima e compacta lavanderia, integrada à área de serviço. Dali, faz uma panorâmica pelo ambiente, numa breve varredura d’olhos. Mas, nada, em nenhum ponto, se denuncia alerta, nada se precipita ativo, ante o pormenorizado exame do seu olhar.

Confirma que o ponto luminoso origina-se realmente nalgum dos aposentos ainda mais íntimos do apartamento: o quarto do casal, talvez. Decide ir até lá, para conferir.

A caminho, ele passa pelo acanhado banheirinho do corredor interno, e já verifica que este também está às escuras, seguindo assim em direção ao dormitório principal. Aí chegando, dá mais uma olhadela preventiva – que também resulta sem resposta – e então tendo constatado, mesmo sem precisar entrar, que a luz vem efetivamente dali, ele passa a mão pelo lado de dentro da parede, encontra o interruptor e o aciona, desligando por fim aquela última lâmpada. Oras oras, mas que imperdoável desperdício!… brinca consigo mesmo, não resistindo a um discreto sorriso de bem-humorada autocensura. Em seguida retira-se, retomando o seu caminho em direção às escadarias.

O edifício fora sentenciado numa manhã sombria de outono. E naquela mesma semana, na sexta-feira, previa-se, ao crepúsculo, tudo deveria vir no chão. Sem apelo. Simples assim. Só que as autoridades não contavam que uma ousada manobra de ocupação, organizada e levada a efeito pelo Movimento Nacional dos Sem-Abrigo, viesse a atrapalhar seus planos. Ou pelo menos a retardá-los um pouco; pois que um pequeno adiamento seria inevitável, até que se resolvesse a embaraçosa situação que a inopinada investida originara.

Mas… se eu tiver mesmo que confessar, direi apenas que simplesmente invadimos o edifício. Sim, havia poucos dias. É o de que me lembro. Eu próprio, a bem da verdade, entrei nessa meio que de bobeira, meio que sem perceber, sem notar, nem querer.  Fui indo, fui deixando… e, de repente, quando dei por mim, já estava sendo engolido, arrancado do meu chão, colhido pela onda da turba, levado pela multidão, lenta e murmurejante, em sua direção…  e assim fui incorporando-me incidental e involuntariamente a ela, até que passamos a fazer parte um do outro, numa recíproca soma de sínteses e aglutinações sem fim. . .

Devo dizer, ademais, apenas que, como me encontrava nas imediações, (pois havia me instalado, naqueles últimos tempos, e por assim dizer passara a ‘residir’, sob a marquise dum daqueles prédios antigos, abandonados, que havia em abundância ali pela região) e vendo o movimento todo daqueles blocos de gente que se orquestravam pelas redondezas, e também por nada mais haver com o quê me ocupar, por enquanto, juntei-me ao grupo que marchava pela minha rua… Foi rápido, impensado: um impulso. Quando a onda passou por onde eu estava, aderi;  e daí simplesente fui seguindo o seu fluxo.

Quando chegamos em frente ao edifício-alvo da ocupação, paramos para ouvir um moço bem-falante que parecia ser o nosso líder, ou algo muito próximo disso, pois discursava de modo como se o fosse. Enquanto ele falava, acentuando com grave ênfase uma série de motivos e justificativas para aquilo tudo, através de uma entonação diferenciada nas vogais secundárias, uma meninota de uns dezesseis, dezessete anos, encostou-se ao meu lado e, muito atenciosa até, começou a preencher um formulário, tipo uma ficha cadastral ou algo assim.

Iniciou tomando alguns dados meus, que nem hesitei em ir logo entregando. Mesmo se às  vezes, e simplesmente ao acaso, eu apenas emitisse expressões que se pareciam com respostas, que se encaixavam em suas perguntas – ainda que para mim não fizessem o menor sentido ou sequer correspondessem a fatos ou realidades cabais.

As negociações demoraram pouco mais de três semanas, e o acordo para a transferência das quase cinco dezenas de famílias ali forçosamente instaladas para um imóvel cedido pela prefeitura foi a solução mais próxima do razoável a que se chegou, visando o atendimento aos interesses de todos os envolvidos na querela.

Mas tudo foi devidamente anotado, transcrito conforme o certo e o necessário, numa bela ficha cadastral.  E assim eu passei a estar inscrito no movimento, adquirindo extensivamente também o direito de ocupar uma das unidades habitacionais do imóvel cuja expropriação agora se formalizava…  em nome da liberdade e do direito de ir e vir, e principalmente do direito de ficar, de escolher um lugar para você estar e daí não precisar sair (ou algo como isso… ou  pelo menos foi quase assim que eu entendi..). 

Tão logo fomos autorizados pelo rapaz que discursava a pôr em prática a ocupação, cada qual de nós tendo recebido um número correspondente à ordem do acesso, tratamos de ir entrando. Todos portávamos o máximo que cada um podia, daquilo que possuía, ou seja: na maioria dos casos, quase nada.

Assim, de qualquer maneira a demolição não deixaria de ocorrer, para satisfação da empresa incorporadora do imóvel, que ali pretendia erguer um novo arranha-céu, e aparentemente ninguém dentre os seus invasores seria apenas devolvido, sem dó nem piedade, ao relento e ao desabrigo.

 A mim me coube uma exclusiva e muito funcional subkitinete no nono pavimento. De início achei tão bom não ter a necessidade de dividi-la com mais ninguém…  Mas  logo pude constatar que dividi-la seria algo de execução praticamente improvável, dada a sua impressionista exigüidade. Todavia, como nada disso tinha tanta importânica assim, para mim, logo como fui chegando, de imediato já  me instalei.

Fluindo assim – como se quase um líquido, ou como uma enxurrada avançando célere morro abaixo – sem se deixar deter por nada, ele rapidamente percorre os últimos degraus e logo chega ao plano térreo. Atravessa o saguão principal, passando pela recepção abandonada num marchamarcha pelotão tão lotado que nem nota que já não está tão atrasado assim… Será que perco algo, enquanto isso? 

Ao atravessar, naquele entretanto, o limiar que dá para a rua, ele imediatamente decide que deve parar. E para. Permanece. Os pés em boa base, ligeiramente separados – ambos descalços, com as plantas espalmadas sobre a areia terrosa que recobre o asfalto difícil daquela superfície impalpável; braços caídos ao longo do corpo; os olhos semicerrados. Ele experimenta aí, então, no calor da tarde úmida – suavemente azulada, por influência da neblina – o ressaibo de uma réstia de arrependimento, como o breve rastro de uma recordação indesejada, salgada, a escorrer sobre sua pele nua. Talvez isso, essa sensação esquisita, ainda sem nome; ou talvez o choque, sofrido de improviso com o tédio pegajoso deste fim de outono, tenham sido os fatores ou as forças que o detiveram, ao alcançar a linha da rua.

Lança a vista em busca de algum horizonte [que sequer seja garantido que possa existir], mas o pouco que ainda consegue enxergar de quase nada lhe serve; e menos ainda como referência.

São só outros [tantos] prédios ao longo da avenida interminensurável, que também repousam silentes, parecendo estátuas de fumaça, que qualquer murmúrio mais volúvel dificilmente os faria mover.

Quanta calma na garganta dessa desolação! Quão pesado ocaso, nesses momentos vagarosos!

 

 

 

 

(continua.. .)

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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