Perpetuocontinuum

decidiu desfazer-se de si (I)

 

 

 

Por um instante, ou por um dia; ou milhares de anos; ou por mais duas, menos três semanas; algumas horas, tanto faz: uma idéia fixa, uma resolução: ainda hoje! [e nem importa que dia isto seja!], ele pretende desfazer-se de si!     Como?      É o que veremos:

No impulso do ato que se segue, então, ele será visto descendo apressado as serpenteantes escadarias que percorrem o longo dorso do edifício, desde o nono andar até ao térreo. Será que, em tempo ainda, terei as respostas necessárias?, pondera ele, enquanto desce correndinho, num ritmo quente, centrífugo, em direção ao rés-do-chão, todo cheio de intenções, objetivando a porta de saída.  

O fato de que o prédio esteja completamente desabitado atualmente, isso em nada interferirá. Antes, talvez, o contrário: tudo parece respirar um hálito transparente, sem cor, nesta hora; tudo parece ir-se diluindo, desobstruindo-se, numa neblina estéril e seminvisível, que recende ora a concreto, ora a cimento (mas tudo naquele mesmo tom vago de sempre, com aspecto de coisas velhas, em desuso, ou por demais gotejantes).

Note-se, no entanto, que isso tudo lhe serve apenas para tornar a descida ainda mais fácil e desimpedida, pois que agora já pode fluir sem óbices, interferências nem resistências. E, sendo assim, só lhe resta mesmo é ir descendo; e ir; e descer, pois, afinal de contas.. .

No vazio daquele enorme esqueleto de concreto, ouve-se somente o matraquear repetitivo dos pés agredindo os pedais sucessivos dos degraus, movendo-se ágeis na trajetória descendente.

Tudo ecoa seco, neste instante, num tom falso, de massa e metal; e de vidro trincando, tangido pelo vento, partindo-se, num gemido ávido, mugente, ao comprido. Enquanto isso, ele desce através das entranhas daquela habitação vertical, agora já totalmente inabitada, sôfrego mas consistente, seguindo rápido em direção ao seu exterior.

O prédio fora evacuado – como tudo o demais ao seu redor – logo depois do meio-dia, já imediatamente após o comunicado do horário oficial da demolição. As providências operacionais relativas à implosão (que estava programada para o final da tarde do dia seguinte), já haviam sido praticamente todas tomadas. Os avisos previamente afixados em todos os locais públicos das redondezas; as pessoas da lista da zona de risco todas alertadas, uma a uma, e cientificadas mediante protocolo individualizado; as instruções de segurança tornadas, todas, de conhecimento geral, em tempo hábil e oportuno; tudo muito certinho, enfim, e absolutamente dentro dos conformes.

As portas dos apartamentos, agora vazios, restam invariavelmente abertas, pois desde o início mesmo da desocupação – que foi muito rápida e angustiada, já que assistida (e inclusive promovida, por assim dizer) por um destacamento da polícia especializada – todos nutriam a certeza de que seria sem retorno… e ninguém teve tempo sequer para arrumar suas coisas, fazer malas ou fechar portas. Seria agora, e era pra já!: vamos lá,vamos lá!:  um, dois…um, dois…acelerado!

De vez em quando ele para – enquanto desce – para observar os corredores vazios, escuros. Não raro lhe acomete algum tipo de nostalgia, ou mesmo uma boa dose de tristeza, causadas ora pelo abandono daqueles habitáculos que ali agora jazem já sem vida, ora pelos ruídos residuais que ainda resistem em sua memória, repercutindo através das longas e empedernidas paredes daqueles corredores, e que aludem quase sempre ao alarido tumultuoso das crianças que até bem recentemente se esbaldavam a brincar por ali. E o interessante é que somente agora ele percebe o tamanho da falta que lhe faz aquele incômodo (do qual, aliás, pra mais de uma vez teve ímpetos de dar parte e registrar sua queixa à zeladoria).

Numa dessas paragens, aí pelo quarto ou terceiro andar talvez, ele percebe uma última luzinha ainda acesa, oriunda d’algum dos apartamentos daquele pavimento. É algo com o que ele certamente não contava, naquelas circunstâncias. E então, ainda um pouco chocado com a inusitada descoberta, ele se detém por um instante. Para. Repara: como o ponto de origem da inesperada luminosidade não fica muito distante dali onde ele está, dirige-se quase que institinvamente até à porta do tal apartamento – talvez tenha alguém ainda por ali, ou… sabe-se lá.

 

 

 

 

 

 

(continua.. .)

 

 

 

 

 

 

 

 


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