Perpetuocontinuum

cães

 

          Juntam-se os cães, às alturas da meia-noite. E com os seus olhares pontiagudos – alvoroçando-se ameaçadoramente – apontam para cá, na direção por onde eu me aproximo. Parece que o que eles querem, bramindo assim intimidadores, agressivos, é instar-me a ir até eles; ou instalarem-se, eles, diante de mim; para externarem a sua gana insaciável.

          Parece mesmo que eles combinam algo entre si, permutam recíprocas senhas e sinais bastante específicos (para mim de todo incompreensíveis, obviamente). .. coisas lá do entre eles! E parece, inclusive, às vezes, que é só e apenas para isso mesmo que eles aí estão: para se comunicarem entre si, enquanto tentam fazer-me ir ter com eles, ou algo assim. 

          Na praia, a estas horas, quase ninguém. É tardes da noite, pois. Mas eu não me intimido muito, não. E não me atemorizo, tampouco. Continuo andando. Sigo vindo, como desde sempre, na mesma cadência repetitiva, no mesmo embalo reticente, avançando minha marcha sem pressa, neste caminhar ininterrupto, reincidente em sua lenga demorosa. Vou vindo, vindo – toda vida, a vida toda – numa regularidade de deslocamento muito, mas muito antiga, que mantenho quase sem esforço, num movimento oscilatório isento de impulsos, praticamente inercial.

          Movendo-me assim, sempre na mesmíssima direção, ou seja, ao encontro do ponto onde se reúnem aqueles cães, eu não tenho por que me apressar. Claro. E de toda maneira já é tarde demais para medos ou apreensões, pois vou ter que passar entre eles daqui a pouco, quer queira, quer não.

          Agora eu já os diviso melhor, lá adiante. E noto ainda que outros mais continuam chegando. Percebo-os desde quando surgem de lá dos fundos, emergindo ágeis de dentro do estômago do beco escuro. Assim que chegam, os cães mais recentes tratam de agruparem-se com presteza e instintiva facilidade, indo logo somar-se aos primeiros.

          Atendo que chegam, esses novos cães – que afinal se afiguram demasiado indóceis, incivis – e observo que eles logo me veem, e perscrutam, atentos. Reparo que vão ficando agitados com a minha aproximação. (Ou serei eu quem os vê e perscruta?, quem os alveja com o olhar e os instiga com a insinuação de uma abordagem iminente, mas de efeitos imprevisíveis?, quem os excita com o antegosto do confronto inevitável?, quem marcha impassível ao seu encontro, sem sequer suspeitar que. ..   serei?).

          Vejo que vêm reagindo rápido. Simplesmente chegam, esses cães, e vão adentrando em cena sem a menor cerimônia, demonstrando apreciável desembaraço e perfeito domínio de suas funções respectivas.

          Instalam-se práticos, semi-prontos para o espetáculo que lhes caberá promover – se for o caso. Algo à semelhança, quem sabe, dum balé meio banzo meio balango, algo bizarro ou patético, talvez. Pois é.

          E eles me aguardam, os cães, reunidos na largura da praia, tomando quase todo o espaço de que eu preciso para atravessar, já ali próximo à embocadura do beco de onde saíram. Mobilizam-se vivazes, num desenvolvimento alerta, antecipadamente programado.

          Seus gestos, embora totalmente caninos – como não poderia deixar de ser, por suposto – apresentam-se como os de quem se prepara para; ou como os de alguém que estivesse sempre disposto, o tempo todo, pronto, apto ao primeiro estímulo, sempre prestes a.

          Articulam-se com jeito de quem desejasse ir de imediato ao ponto, com ímpetos de ir direto, com ganas de atingir em cheio o nervo do alvo. Por enquanto, todavia, muito embora essa inquietação toda, eles estão, aparentemente, ainda priorizando os trâmites necessários ao fito de se organizar. Ou seja, formam, formalizam a matilha.

          Ademais, o nosso contato não é senão apenas visual, ainda. É que eu, de minha parte, não estou tão próximo o suficiente para ficar ao alcance da sua abordagem, se é que me faço entender. E eles nada podem fazer, então, a esse respeito. Seus avanços e ofensivas não me alcançariam aqui, por mais desejável que isso lhes parecesse neste instante.

          Eu apenas caminho pela praia. O meu ritmo é tímido, na verdade, mas provido de algum vigor, e dotado de certas motivações intramusculares.

          Tendo a orla à minha esquerda, vou andando calmamente, sem me deter. Alterno os meus passos, ora sobre a areia úmida, ora sobre as franjas tremeluzentes da água, deixando-as beijar bem de leve os meus pés descalços, e os refrescar um pouco enquanto isso. 

          Logo adiante, percebo que alguém se aproxima. Mas observo desde cedo que a pessoa caminha de costas. E por isso mesmo anda um pouco mais lento do que eu.

          O sujeito que vem lá avança à sua ré, vindo na minha direção, sem olhar muito por onde anda. Exibindo uma desenvoltura extraordinária, semi-atlética, a bem dizer, como a desenvoltura de quem para diante caminhasse, ele caminha ao meu encontro, evoluindo [retroativamente] sem a menor hesitação.

          Muito embora o escuro da noite, diviso-lhe com toda a nitidez as largas espáduas nuas, alcançadas aos poucos pela gadelha desgrenhada, ampla, esvoaçante. Ele parece, andando assim, alguém já bastante acostumado a esse modo de locomover-se. Como alguém que simplesmente se deixa fluir, seguido de perto pelos seus próprios passos ]invertidos[, adiantando-se para trás, ele segue firme em sentido oposto ao meu.

          Parece ser algo bastante natural para ele, isso de ir vindo assim, como quem ficasse; ou como quem fosse; ou apenas seguisse sem sequer saber para onde estivesse vindo. E assim vamos nos aproximado um do outro: eu no meu tranco; ele no dele, só que de costas. Logo estamos a poucos passos de distância um do outro, sem que nenhum faça a menor menção de que poderá deter-se ou recuar.

          Todavia, ao observar a minha marcha em direção àqueles cães [à matilha de cujo seio me parece agora que ele havia surgido], e ao notar a minha aproximação para o inevitável encontro, ele começará então a querer instigá-los contra mim. Com o seu odor a ferrugem, a sal, a farol, o sujeito que caminha de costas agitar-se-á tremendamente, num convincente esforço para compeli-los sobre este ser andante que agora eu sou. 

          Neste momento, porém, eu ainda não os temo. Nem aos cães, nem ao sujeito que caminha de costas. Nem os temo e nem os estimo ou desestimo tão-somenos. Deles todos desconheço medos, neste instante. Desconsidero ameaças ou gravames ademais, de quemquerque. Por mais agressivos ou beligerosos que eles tentem parecer, aí mesmo é que eu não vacilo. Mantenho-me firme em minha trajetória, pois é necessário continuar.

          Mas: atenção! Acho que então, por fim, chegou a nossa hora: vamos nos encontraaar..   exatameentee..    agora.

          Cruzamo-nos. E é neste instante então que nos olhamos: ele olha bem para mim – que me volto por sobre o meu ombro esquerdo para poder vê-lo também, de frente. Percebo que ele tenta, com o olhar fixo – mas hesitante um pouco ainda – me oferecer algum tipo de questionamento ou algo semelhante (esforço inútil, bem se vê: é só constatar, pois não alcancei, até agora, compreender do que é que se trata isso tudo, afinal).

          Simultaneamente eu o fito também e retenho-o no próprio ato do meu olhar. E o constato, nesse instante, no aspecto de um sujeito muito magro, alto (pouca coisa mais alto do que eu). E bastante idoso, ao que aparenta. A pele curtida, drapejada de sulcos e abusada de dobras supérfluas a denunciar que mesmo assim ele é só um ser que passa e é também alguém para quem o tempo parece passar ainda mais depressa do que para os demais de nós.

          E ao final desse efêmero contato, parece-me que ele quase tentava dizer alguma coisa.. . mas não disse nada. Noto que algo lhe transpassa a mente, enquanto nos cruzamos. É algo que ele me diria, se pudesse – mas ele certamente não ignora que não poderia, por mais que quisesse. E afinal nada diz (e é por isso que todos ficaremos sem saber quem era ele; que relação teria com os cães que me aguardam ali em frente; por que motivos caminhava de costas; ou, ainda, do que se tratava o que ele teria a dizer naquele momento, se acaso pudesse). E assim ele desaparece.

          Os cães agora apresentam-se cada vez mais ativos e irritados, num bulício febril que cresce em formas e proporções. Dá para presumir que eles irão logologo começar a correr – e será na minha direção! É questão só de mais demora, menos demora.  Antigos e incontroláveis impulsos os moverão: comicham ímpetos entre suas glândulas e impulsos de novas intenções. Dá pra sentir a impaciência brotando, adensando-se no ar que exalam dos seus pulmões, evolando-se através das pequeníssimas nuvens que eles deixam escapar pelos focinhos longos e úmidos.

          São poderes que se insinuam. São vontades que se instalam. Suas presas se apresentam, querendo se soltar das gengivas arreganhadas. São rondares de olhos feros que me observam. Comportam-se musculosos, tesos, endurecidos, em atitude sempre de prontidão, aqueles cães.

          [Pois então, se é assim: eles é que se preparem!, raciocino. Pois que venham. Estou pronto, eu também! Pois saibam que estou sempre prestes a a. . nuunca!  neemque!]

          Mas então, eis que nesse momento um anjo calvo nos aparece! É um desses anjos calvos comuns, de meia idade, que usam shorts e camiseta. Um anjo desses que vivem sós, que estão sempre à espera do momento certo para aparecer e entrar em ação.

          Neste caso, ele vem montado em seu possante tratorzinho azul. Vem surgindo desde longe no horizonte, num trote solto, bem largado, mas muito ágil, com o motor bufejando de tanta pressa e vontade de chegar. E assim que se aproxima, já logo vai ter com a matilha.

          O trator traz uma pequena carroça rebocada, dessas mesmo próprias para transportar embarcações de pequeno porte, o que alonga e torna flexível o seu perfil. E assim que ele chega, já os vai cercando, forçando-os a formarem um grupamento só, compacto. E os vai conduzindo (constrangendo-os, deixando-os sem qualquer recurso de mobilidade, essa é que é a expressão correta dos fatos), empurrando-os para o interior do próprio grupo.

          Em seguida, fazendo com que o bloco todo se anime e comece a se deslocar – em círculo, sobre si mesmo – ele os confina a um estado de cerceamento e impotência mecânica do qual não conseguem se desvencilhar.

          Confusos pelo suave grunhido do motor, e pelo movimento deslizante do veículo sobre a areia, eles relaxam (embora bastante desconfiados, de início) a sua atitude, imitando um pouco a fleuma fácil e quase contagiosa com que aquele anjo os acondiciona em seus subcírculos concêntricos.

          Parecem, agora, menos agressivos e amotinados do que antes: é o que eu percebo. É como o esboço de um raciocínio surdo que estivesse sendo murmurado, ou viesse já inclusive pelo gesto e pelo jeito daquele anjo ali, evidenciando que ele sabe realmente lidar com os cães. E estes, então, simplesmente cedem e se acalmam.

          Isso faz com que o anjo calvo possa usar, então, os rastros que o seu veículo vai deixando para demarcar sobre a areia as fronteiras além das quais fica desautorizado qualquer daqueles cães a prosseguir. E calculadamente ele vai fazendo com que o trator ande mais ou menos no mesmo ritmo das minhas passadas, posicionando-se entre eles e eu.

E          assim, com as feras ali retidas e suficientemente dominadas, eu passo ao largo, contornando-os na maior calma. E, com toda a tranqüilidade, seguindo além, sereno e confiante.

          [Quanto ao sujeito que caminhava de costas, agora eu já nem sei direito o que houve com ele pois evito olhar para trás. Mas poderia imaginar que, talvez após a minha passagem, aquele anjo calvo pudesse ter liberado os cães outra vez. E, soltos apenas a si e quem sabe reanimados em sua sanha veemente, eles poderiam querer aproveitar que estavam ainda formalmente organizados e continuavam preparados para o ataque, não seria surpresa se, inspirados pelo odor que ele, andando de costas, vai deixando pela praia, os cães partissem em dasabalada perseguição, para fazer com ele o que não conseguiram comigo. Bem, talvez também não. Mas, afinal, como saber?]

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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