Perpetuocontinuum

aldeia (III)

(parte 3)

 

Recolheram-no braços fortes, de pele escura – mas não muito mais escura do que a sua própria pele, agora curtida já pelos efeitos da tamanha insolação que sofrera. No entanto, deram-lhe de comer e de beber, para que se recuperasse. Curaram-no das suas feridas, restabelecendo-lhe a saúde com notável rapidez.

Ele permaneceu, todavia, um longo período em choque, não conseguindo emitir uma palavra sequer. E sofrendo enormes dificuldades para interpretar o que tentavam lhe dizer, naquele dialeto estranho, que certamente não era o seu.

Mas tão logo se sentiu um pouco melhor, restabelecido, e por ser bastante jovem ainda e muito vigoroso, desejou começar a participar dos trabalhos e afazeres do cotidiano daquela tribo que o acolhera.

Foi-se integrando gradualmente, não demorando muito a passar a ser tomado quase como um deles. E, conquanto falasse muito pouco, e andasse freqüentemente com o cenho contraído, introspectivo, era visto sempre com grande respeito, e admiração até.  Pois, afinal, sobrevivera – heroicamente, para muitos! – a uma das mais extraordinárias tempestades de que até então se tivera notícia. E isso, obviamente, não era pouco!

Logo foi aprimorando a sua comunicação, e rapidamente superou as barreiras da língua, adaptando-se fácil à vida e aos costumes daquela gente que o adotara tão carinhosamente. Gente, aliás, que, numa impressionante demonstração de solidária reciprocidade, foi-se também adaptando a ele!

Isso facilitou sobremaneira para que ele não sentisse muita falta da sua terra de origem. Talvez já nem se lembrasse mais de como era lá, ou de como eram as pessoas com quem convivera. Só sabia que era diferente de agora. Muito diferente! E, afinal, ele nem sequer precisava pensar muito sobre nada disso. Tinha mais com o que se ocupar.

Gostava dali, porque gostar dali não era algo realmente muito difícil. Tanto pode ser pelo modo atencioso e distinto com que sempre o tratavam, como pode ser pelo fato de que alguns demonstravam nutrir uma certa preferência por agradá-lo em especial, e eventualmente até por fazer-lhe demoradas mesuras, gesticulações respeitosas, galantes cortesias.

Cochichava-se, inclusive (ele soube, certa vez), que possuiria atributos incomuns, ou que ele seria uma espécie de semideus, cuja chegada era prevista (e fora descrita, há séculos, pelos primeiros xamãs da tribo), e coincidia exatamente com as circunstâncias que o trouxeram até ali. Mas, no geral, todo mundo se esforçava muito para não deixá-lo constrangido com a situação, ou por demais intrigado com essas coisas.

Depois de algum tempo, reparou que os jovens ali não eram submetidos a provas físicas específicas para demonstrar sua aptidão à vida social adulta, ou aos privilégios do casamento. Essas transições aconteciam de forma mais sutil, quase imperceptível, com grande naturalidade, e variando para cada indivíduo quanto ao momento e à duração de tais passagens. A ele, entretanto, não o atraíam em particular esses trâmites, pois não pretendia casar-se – já que até o momento nenhuma das fêmeas dali chegara a entusiasmá-lo de modo especial – e aparentemente já se incorporara, e bem, à vida coletiva da comunidade.  

As freqüentes pugnas, que ele assistia com grande acuidade e interesse, e que muitas vezes eram disputadas tanto com armas portáteis de curto alcance quanto apenas com os recursos do corpo próprio, em torneios periódicos ou a qualquer tempo nos espaços da aldeia previamente designados para esse propósito, não tinham finalidade exclusivamente recreativa. Destinavam-se, como logo pôde perceber, à educação marcial dos valentes da tribo.

Não foi mais longe o seu convívio na aldeia, até que passassem a chamá-lo também para participar de tais práticas. Muito cuidadosamente, mas mais de uma vez, fora abordado com insinuações de que dele eram esperados grandes sucessos nas arenas.

E, de fato: o seu espírito combativo, e a agilidade dos seus reflexos, que pareciam instintivamente aguçados – produtos, por certo, dos sólidos ensinamentos de base, adquiridos nas fases preparatórias às provas da juventude, e também dos esforços de treinamento contínuo –, logo o colocariam em posição de destaque.

Dominava como ninguém as técnicas de combate singular em solo. E não se atemorizava ante nenhum adversário, mesmo que este o afrontasse portando arma ou recurso adicional de ataque, qualquer que fosse. Não temia, e jamais recuava, ainda que o adversário se apresentasse multiplicado por dois, três ou dez, e organizado em numeroso bando. Antes o oposto: era geralmente ele quem tomava as iniciativas do confronto. Sabia desde sempre que esse era um estratagema muito útil, principalmente quando em desvantagem material, pois cedo aprendera que o temor é o padrinho certo para a maioria das derrotas.

Na água era imbatível. Seja embarcado, nadando ou mergulhando, de longe sempre o mais veloz. Seu fôlego parecia realmente não ter fim. Corria, subia montanhas, atravessava campos e vales com inesgotável disposição. Escalava altíssimos paredões de pedra – como os do costão setentrional – com a leveza e a tranqüilidade de quem sobe numa árvore para colher o fruto maduro.

Aprendera a atirar com o arco; e usava a lança, os facões e a atiradeira com refinada perícia e vertiginosa precisão. Desenvolvera engenhosas trampas e alçapões, visando substituir as primitivas armadilhas que ainda se usava por ali. Assim ele caçava, pescava, tecia, plantava e colhia, sempre com excedentes de capacidade e energia, adornados de uma aliciante simplicidade, granjeando crescente e unânime reconhecimento por parte de toda a aldeia.

Nos tempos de guerra, era sempre um dos primeiros a serem mobilizados. E em campo nunca falhara nos seus compromissos para com os camaradas, demonstrando possuir notável lealdade, além de grandes virtudes de brio e coragem. Tinha, ainda, uma inteligência estratégica bastante desenvolvida, tornando-o cada vez mais freqüente às mesas de decisão e comando. Antes, durante e depois das batalhas mais decisivas.

No curso de pouquíssimos meses, e acumulando vitórias consecutivas, ele viu a sua tribo tornar-se poderosa, temida e respeitada. As fronteiras dos seus domínios alargavam-se continuamente, pois os povos e territórios, ao serem conquistados, punham-se imediatamente a serviço (e a soldo) dos invasores.

Nesse período, ele foi crescendo rapidamente na hierarquia militar – e na carreira política também, pois em tempos de guerra, lidera quem tem mais homens e máquinas sob seu comando – ascendendo às sucessivas posições de liderança com grande naturalidade. E assim, em poucos lances, ele estava no controle absoluto de uma potência considerável, cujos limites se expandiam praticamente sem cessar, não encontrando adversários à altura das suas qualidades táticas e da sua incontestável supremacia bélica.

 

(continua)

 

 

 


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