Perpetuocontinuum

aldeia (II)

(parte 2)

 

Não se sabe se por negligência dos navegadores ou se por funesta ação das forças próprias do mar, o certo é que a embarcação naufragou, juntamente com todos os seus tripulantes e também o seu jovem prisioneiro (claro, pois a prova consistia exatamente em conseguir soltar-se das amarras, evadir-se do local, e retornar à base em terra, tão pronto e tão a salvo quanto possível). Foram todos tragados, de súbito, pelas ondas do mar revolto.

Sabe-se, porém, que o mar revolto é uma fábrica de reveses; sabe-se que a voz do vento deve sempre ser ouvida, e assuntada; sabe-se que a noite nunca convida em vão; sabe-se tudo isso – e sabiam-no eles todos, desde os seus mais distantes ancestrais!, e… no entanto, com a maior facilidade, como se nada disso se soubesse, enfia-se-lhes a cara a navegar, metem-se a querer cavalgar o dorso bravoso do mar, logo num dia como esses… pois até parece que se deixa para ser mais impetuoso e temerário geralmente quando menos se deveria!

O fato é que todos foram, de um susto só, absorvidos, devorados pelo mar enorme. Somente dias depois é que os corpos foram recuperados, em sua quase totalidade, pelos pescadores. O único ausente era – por irônica coincidência – o daquele jovem (que lá estaria justamente para demonstrar a sua bravura, e realizar o seu feito de coragem).

Os dias se passaram, sem que fosse encontrado qualquer indício de que ele sobrevivera. Mesmo após exaustivamente examinada toda a extensão alcançável pelos esforços da tribo. Assim, ele foi dado e tido, desde então, como definitivamente morto.

Mas o jovem aspirante, no entanto, sobreviveu! Ocorrera que, durante a borrasca, ao ser tracionado pela força das ondas na direção oposta à do barco, isso fez com que o ímpeto do golpe – ajudado pela fragilidade do madeirame da embarcação, sob o impiedoso assédio da intempérie – soltasse os vínculos da base onde estava amarrada a corda que o prendia, liberando-o de pronto.

No seu desespero, ele nadou o suficiente para alcançar e apoiar-se num mastro que não afundara. Mas, muito embora tentasse a ele permanecer agarrado, logo se sentia desfalecer, e seus braços, sem forças, se soltavam do sustentáculo, afundando inúmeras vezes, dessa maneira.

Entretanto, mesmo nessas ocasiões, ele não se afogava. Parecia-lhe até que a água do mar não o asfixiava, negando-lhe o oxigênio; mas que, ao contrário, mantinha-o respirando, fornecendo-lhe o ar necessário, que só acessava os seus pulmões depois de diligentemente filtrado pelas pequeníssimas fissuras que possuía (e que somente agora se dava conta disso!) em ambas as axilas. Ou.. . pelo menos, essa era a impressão que ele tinha, durante as sucessivas imersões que sofria, ou enquanto retornava à tona, alternando breves lapsos de consciência com recorrentes episódios de confusão e delírio.

Então nadava um pouco mais, um pouco mais. . . até ao máximo dos limites que agüentava.. até desvanecerem-se-lhe as energias últimas, afundando de novo.. . Mas, de novo ressurgia. ..

E assim, meio desperto e meio desmaiado, ele vagou longamente, atravessando noites enluaradas e dias de céu aberto; muito sal e sol ardente a temperarem-lhe o dorso; a persistente chuva (água doce, sempre bem-vinda!), de dia e de noite, a refrescar-lhe as têmporas, quando à tona, e umedecer-lhe os lábios; águas-vivas a guarnecer-lhe os flancos; aves noturnas a trazer-lhe, secretamente, o alimento necessário. .. e desse modo ele vagou, tempos e tempos. ..  até aportar numa praia, que certamente não era a sua.

 

(continua)

 


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