Contræncontro

a caixa

O menino passa correndinho, a toda, pelas ruas estreitas da cidade. Está assustado, o pobrezinho. Seu olhar pulsa amplo, tenso, sem tamanho. Sua camiseta de malha, de tanto ele correr, está meio úmida já – é o suor – e traz pequenas manchas de sangue entranhadas nas fibras do tecido.
É dia, ainda. De tarde. E já quase tarde demais, diria alguém que observasse a cena duma das janelas nas ruelas estreitas por onde ele vai passando. Ao longo do seu caminho outras crianças brincam distraídas, sonâmbulas, aparentemente confortáveis nas suas estripulias vespertinas.
Acontece que essas crianças não o percebem passando – tão desamparadinho, coitado, ele, que só. Talvez seja por causa da sua enorme velocidade, ou quem sabe porque ele passe muito correndo bem ligeiro e assim por demais depressinha, talvez.
Salta ruas, às vezes, ele, nesse seu passo impulso pulsação. Atravessa mais rapidamente os viadutos e principalmente as avenidas, pois lhe parece que sejam estes os acidentes urbanos os menos complicados e talvez, por isso mesmo, os mais acessíveis. E assim ele mergulha no trânsito crônico e intenso que corre a estas horas pelas velhas artérias viárias da sua cidade.
Parecem-lhe demasiado indiferentes mesmo aquelas outras crianças que brincam em tão inofensivo descompromisso, só com gestos de poucos movimentos, meio que a sós, meio que para elas só consigo mesmas. Mas logo depois ele já quase nem as consegue ver mais: passa através delas, como uma nuvem por sobre o abismo, quase sem deixar-se notar, sem deixar que se saiba sobre a sua passagem. Essas crianças, todas muito outras entre si, obviamente não se incomodam quando ele passa e a tarde não as perturba enquanto só crescem, distraídas, queimando a energia e a liberdade que lhes compete na idade em que se encontram.
É necessário, no entanto, compreender que essa história toda começou já quando era ainda bem de manhãzinha, neste mesmo dia. Fazia frio. Um circo enorme havia chegado à cidade. Ele – aquele menino que agora vemos correndo – percebeu desde logo do que se tratava. Mas nem todos se deram por isso, pois a maioria nem aí. Acompanhava, atento a tudo, desdo início, alerta aos menores detalhes, desde a abordagem do local até à instalação das últimas estruturas. Reconheceu e protocolou a alegre chegada dos primeiros veículos circenses, tão esquisitos, tão diversos de tudo o quanto ele até então havia conhecido.
Eram coloridos, profusamente coloridos, os equipamentos que desembarcavam e se iam organizando, de um modo tão sinérgico, tão automático, sobre o dorso irregular do gramado. Seguiu assim, em alerta máximo, todos os movimentos seguintes, até à implantação completa do acampamento – que ficava no centro do enorme lote baldio defronte à sua casa.
De madrugadinha, simplesmente irromperam – os integrantes da indiscreta caravana – e entraram abruptamente pela cidade portas adentro. Chegaram desfilando barulhos fanfarraônicos, naquela sua zorra caleidoscópica e ululante, acordando meio mundo – o outro meio: aquele que nem aí – e foram-se instalando, formando um longo círculo concêntrico no amplo e ocioso gramado de defronte à sua casa. E ele, que estava já bem desperto àquelas horas, a tudo assistia, e a tudo dedicava cuidadoso monitoramento.
Estrategicamente posicionado a um canto da varanda, com as costas repousadas contra a parede de alvenaria, os joelhos bem unidos junto ao peito, o queixo levemente levantado – formando um ângulo até que suave e elegante (como o de alguém que não apenas inspeciona o que acontece, mas que ainda assim avalia e mede cada acontecimento segundo critérios seus bem próprios e particulares): ele observa, atento e calculista, a alegre coreografia dos circenses, suas vozes  e regências, suas lógicas e seus odores, horas e horas. E fica ali parado, quieto, sentadinho, só olhando.
Acompanha, inclusive, as operações mais onerosas de descarregamento e montagem das estruturas circenses. Só com os olhos, de início, num movimento pendular longo e demorado. Sem emitir ou formular opinião nenhuma, entretanto.
A simples presença daqueles estrangeiros, imprevista e de jeito algum imaginada anteriormente, já lhe resultava de uma importância cheia de simbolismos, e armadilhas! É que ele gostava, bem parece.
Quando, entretanto, os trabalhadores começaram a descarregar uma grande caixa azul, vermelha, lilás, aliás, cinza-esmaltada, amarelo-dor, cor-de-solidão, cento e treze timbres diferentes de verde maisoumenos, laranjas-sem-nenhum-verniz, marrons-muito-lá-do-fundo, e outras cores assim sem-fim, ele não hesitou e correu rapidinho até onde ela estava. Espreitou-a, estudando sua delicada arquitetura e suas características mais relevantes, e, ao primeiro descuido dos operários, num relâmpago de mil fumaças, entrou rapidinho para dentro dela.
Seu interior era escuro. Ficou, por isso, um bom tempo perdido lá dentro. Logo depois, porém, começou a andar, vagando às cegas, inicialmente. Encontrou cadeiras idosas, móveis antíquos e outros utensílios já ali sem qualquer utilidade; espalmou suas mãozinhas contra uma parede que aparentemente logo iria desaparecer; atravessou um estreito compartimento onde jaziam montanhas de tartarugas de plástico, embrutalhadas com fragilíssimos arames de gelo; depois deitou-se para descansar sobre outras tantas centenas de sapatos de boneca, amontoados por ali, pelos cantos. Esboçou surpreender-se um pouco com isso tudo, mas permaneceu calado, todavia.
Ouviu então um ruído pouco melodioso, como de algo muito fofo sendo serrado. Vinha, ou partia, do lado de fora da caixa. Aí percebeu que havia uma finíssima lâmina de luz que descia desde o teto até o chão, logo à sua esquerda. O ruído desaparecera, de súbito. Tudo era silêncio agora. Só um longo vazio se estendia, branco, obeso.
Enquanto ainda suspeitava daquele silêncio todo, recomeçou a andar. Alguma coisa fria e escura apertava-se contra a sua cabeça, agarrava-se em seus cabelos curtos e comprimia-lhe o crânio muito fortemente, pois teve que parar logo em seguida. Foi quando sentiu os primeiros odores de carne queimada. Sentou-se um pouquinho no chão, mas não demorou muito, pois o ruído logo reiniciou, trazendo junto consigo aquele aroma amargo e pesado de carne quente sendo rasgada. Olhou de novo para aquele fiapinho de luz e pôs-se a cismar sobre ele, mas um gotejar sobre suas costas o arrebatou do torpor contemplativo em que se metera. Era sangue.
Nesse instante pensou que algum dia, talvez, bem mais tarde, iria resolver que esse episódio não teria sido nada além de um sonho tolo, e bem cedo desistiria de tentar compreendê-lo. Mas não pôde conter a idéia de que o mágico do circo, dono daquela extraordinária caixa colorida, em cujo interior ele se encontrava então, estava em plena atividade, isto é, serrava, mais ou menos à altura dos quadris, sua graciosa assistente.
Aquele odor de carne humana sendo rompida a traços de serra causou-lhe fortes náuseas. Mas ele segurou – já era quase um homenzinho, afinal. Então correu, com a energia total de todas as suas pernas, numa velocidade assustadora, até conseguir saltar para fora daquele lugar.
Desde então, e por todo o curso daquele dia, ele tem sido visto correndo pela cidade, passando quase que invisível por entre as crianças que brincam vespertinas, tão desamparado, ele, coitadinho, com sangue quente ainda preso às fibras do tecido de sua roupa. E ninguém sabe até quando, até onde ele irá.


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