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15.05.2009

Artigo do escritor e crítico literário Enéas Athanázio sobre "LuzazuL"


Publicado no Jornal Página 3, de Balneario Camburiu – SC

LUZAZUL

Enéas Athanázio

Os poetas estão ativos. Pelo menos é o que parece indicar a quantidade de livros de poesia recebidos nestes últimos tempos. Registro, entre outros, os de autoria de C. Ronald (SC), Manoel Cardoso (SP), Yó Limeira (PB) e Cláudio Dutra (SC), cada um expondo suas tendências e com estilo próprio, uma vez que – como se diz – o estilo é a pessoa. Ou, segundo Monteiro Lobato, o estilo é como o nariz, cada qual tem o seu.
Todos são bons poetas e, a rigor, merecedores de um comentário, mas quero cingir-me aqui ao livro “luzazul e outros poemas”, de autoria de Cláudio Dutra (Editora Insular – Florianópolis – 2008). Poeta e contista, é autor de vários livros, graduado em Filosofia e nascido em Campos Novos, minha terra natal, ainda que esteja radicado na Capital. É detentor do Prêmio Luís Delfino (1992).
Como já deixa entrever o título da obra, sua poesia é livre de todas as peias e ensaia os mais arrojados voos e experimentos com resultados surpreendentes e positivos. Nele se misturam traços das mais diversas influências, daquelas a que nenhum escritor consegue fugir, filtradas pelo gosto pessoal. É admirável o jogo que ele estabelece com as palavras, as sílabas, as letras, os símbolos gráficos. Tudo entra na composição de seus poemas, mas na medida certa, sem exageros. Existem poemas que namoram o concretismo, outros tantos que se aproximam de outras correntes e até alguns que poderiam, talvez, ser tidos como os poemas-nimuto. Por outro lado, o poeta se revela culto e informado. Suas alusões e subentendidos confirmam a afirmação, não faltando às vezes um toque de humor. O social e o meio ambiente também se mostram em sua poética.
Além disso, Cláudio Dutra é produtivo. Seu livro tem 142 páginas repletas de poemas sobre os mais variados temas, sugestões, inspirações e ideias, indicando um trabalhador dedicado e que se entrega à feitura de sua obra sem cansaço. Presumo ser daqueles que escrevem, reescrevem, cortam, podam e acrescentam, na busca sôfrega pelo que lhe pareça a perfeição, e na luta com a palavra para que expresse com exatidão o pensamento do autor. Mostra disso é a parte final do livro, aquela que lhe dá título, onde reuniu dezoito poemas inspirados na obra de Velci Olga Vieira, experiência a que se entregaram grandes nomes da poesia e que nada tem de fácil (pp. 124 a 142). João Manuel Simões, por exemplo, fez algo semelhante com a obra de Picasso.
A poesia de Cláudio Dutra é muito pessoal, diria mesmo personalíssima, refletindo seu esforço na criação de uma linguagem própria. Embora livre e muitas vezes abordando temas abstratos, não é hermética e também não é simplista, mas o leitor aficionado de poesia consegue sem esforços estafantes, como em tantas outras, alcançar o seu sentido.
Para encerrar, não me furto a alguns exemplos. Assim, em “Sem as asas”, diz ele: “se/ estás/ sem/ as/ as/ as – estás/ sem/ as/ senh/ as/ do que/ és” (p. 38). Outro: “feudos” – “os territórios deste reino/ assim se dividem:/ gleba principal:/ pertencente ao principado;/ zona nuclear:/ sob domínio dos influentes;/ e,/ é claro,/ para todos os subdemais:/ a periferia/ e suas pegajosas adjacências” (p. 46). Mais um: “meio” – “li xo – origina – ver mes/ ge ra – ab jeta – nojeira – engendra – bi chos – su jos/ gen – te/ vi ve/ nis so/ al guém/ vê?” (p. 54).
(Endereço da editora: Rodovia João Paulo, 2 2 6 – 88020-150 – Florianópolis).


Sobre o Autor:

ENÉAS ATHANÁZIO, contista, crítico, biógrafo com extensa bibliografia, é um dos escritores mais publicados e conhecidos de Santa Catarina. Reside em Balneário Camboriú.
No gênero conto tem editados O Peão Negro (1973), O Azul da Montanha (1976), Meu Chão (1980), Tapete Verde (1983), Erva-mãe (1986), Tempo Frio (1988), O Aparecido de Ituy (1991), Rosilho Velho (1994), A Gripe de Barreira (1999), O Cavalo Inveja e a Mula Manca (2001) e muitos outros, além de novelas, ensaios, artigos, biografias.



Tags: LuzazuL

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